Comprar armas fica cada vez mais fácil
Os relatos de traficantes e usuários ouvidos pela Folha revelam que a disseminação das armas de fogo na periferia é uma das heranças mais nefastas do comércio de droga.
''Na década de 80, a barra já era pesada. Fiz parte de gangue. A gente brigava. Espancava. Usava soco inglês, balaústra, pedra. Mas arma nem pensar'', lembra o DJ KSK, como é conhecido o rapper, radialista e comerciante Josmar Machado da Silva, 33 anos, que passou a adolescência e parte da juventude na criminalidade. ''Era uma coisa muito rara, difícil de comprar e considerada muito perigosa. Se já rolasse da maneira como rola hoje, a tragédia teria começado antes''.
KSK observa que o número de armas em circulação também fez o medo aumentar nos confrontos e as chances de haver um disparo em uma confusão cresceram muito nesta geração. ''Agora, o moleque sabe que do outro lado pode vir chumbo, então ele atira sem dó''.
A cidade cresceu, o desemprego explodiu, o tráfico de armas via Ciudad del Este aumentou. Desde que a rede do tráfico passou a se expandir com mais rapidez, o perfil do comprador de armas mudou radicalmente.
Na ocasião, os integrantes de quadrilhas de assaltantes compunham o restrito mercado na década de 80. Nos últimos dez anos, de acordo com a rede de tráfico, o preço das armas foi caindo com a concorrência do contrabando e com o aumento da oferta.
O acesso mais fácil incluiu no exército armado alguns adolescentes bancados pelo tráfico emergente. A realidade atualizada mostra crianças que praticam tiro ao alvo em áreas baldias e não vacilam em roubar pedestres, farmácias, lotéricas, ônibus e motociclistas em sinais de trânsito.
''A molecada nem compra mais arma, eles ganham, viram aliados do movimento e levam isso a sério'', revela uma traficante que comanda uma das principais bocas-de-fumo de Londrina. ''Aí é só eles pedirem que conseguem a pedra. É um tipo de pagamento para vigiar a vila''.
Tudo que roubam compram em maconha, tinner e cola, num primeiro momento, e depois, no começo da adolescência, começa o consumo desenfreado do crack (os traficantes doam apenas pequenas porções). O revólver, torna-se assim, uma arma a favor do sustento da dependência.
Um menor de 17 anos fotografado para esta reportagem que mora em um bairro da zona sul tem três armas. Ele conta que uma delas uma calibre 32 lhe custou apenas R$ 50,00. Um jovem morador de rua, que trafica maconha no Zerão aos domingos, confirma que comprou a primeira arma na Vila Santa Terezinha e pagou o mesmo preço.





