São Paulo - Consumir não é mais luxo, deixou de ser opção e transformou-se em uma necessidade: a ser evitada ou saciada. Na sociedade dos estímulos para a compra, das mercadorias disponíveis a todo momento e do bombardeio das propagandas, dois grupos se delineiam entre os corredores e as vitrines dos shoppings centers: os que compram para sentirem-se bem e os que sentem-se bem ao comprarem cada vez menos.
Para o primeiro grupo, comprar é praticamente uma terapia e uma boa loja é o melhor lugar para se refugiar de um dia ruim no trabalho, mesmo que momentaneamente. Consideram o cartão de crédito item de sobrevivência e não sentem culpa ao chegarem em casa com pelo menos uma sacola nova. Fazem parte dos 48% dos entrevistados que afirmam que ''fazer compras serve para relaxar'', segundo pesquisa feita com 4.641 pessoas pelo grupo Ipsos-Marplan em nove centros urbanos do País, no primeiro trimestre do ano.
São pessoas como a arquiteta Cecília Mugel, de 42 anos, que defende sem remorsos que uma comprinha de vez em quando, ou mesmo toda semana, não faz mal a ninguém. ''É uma terapia'', diz. ''Trabalho como uma doida e entrar no shopping é uma recompensa. Eu me sinto bem se puder comprar aquilo de que gosto'', conta.
Desde que moderadamente ou seja, sem entrar em falência, pegar empréstimos bancários ou estourar todos os limites dos cartões de crédito apenas para adquirir mais uma peça de roupa ou equipamento eletrônico , o mecanismo de comprar e sentir-se melhor logo em seguida tem uma explicação e não precisa ser condenado. ''A pessoa que compra pela gratificação do ato e que faz uso do objeto está se recompensando, se gratificando de alguma forma'', explica a psicóloga Suely Guimarães, da Universidade de Brasília (UnB).
A satisfação acontece porque, segundo a psicóloga, comprar é também incluir alguma coisa nova à realidade da pessoa, provocando uma mudança no estado no qual ela se encontra com a adição de um novo elemento. Em outras palavras, se uma mulher está triste por algum motivo, compra um vestido novo e se sente bonita, ela melhorou sua auto-estima e, naquela hora, ficou mais animada. ''São mecanismos compensatórios que as pessoas encontram para preencher alguns vazios'', complementa.
Quem compra até percebe esses mecanismos, mas não modifica seu comportamento ao tomar consciência das tentativas de compensação. ''Se estou triste, nervosa, a primeira coisa que me vem à cabeça é consumir. É um refúgio. Entro no shopping e compro, mesmo que seja uma meia. Sei que é uma maneira de tentar esquecer meus problemas'', conta a publicitária Marcela Cruz Ferreira, de 21 anos. ''Tento me controlar, às vezes fico sem dinheiro, mas adoro comprar'', resume.

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