COMPORTAMENTO - Respeito e uso politicamente correto devem andar juntos, dizem minorias
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domingo, 20 de novembro de 2005
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
Não é difícil imaginar a reação do Palácio do Planalto se, no dia seguinte a uma suposta comprovação de irregularidades praticadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as manchetes dos jornais trouxessem a seguinte informação: ''Presidente vai ser cassado por perversidade administrativa''. Processos e mais processos choveriam nas redações, graças à ousada ofensiva com que os jornalistas se referiram ao impeachment do presidente.
Nesta hora o politicamente correto entra em ação e, em um ápice de cautela, a irregularidade passaria a ser tratada como ''improbidade'', o que, na prática, não ofende ninguém. O que poucos sabem é que ''improbidade'' e ''perversidade'', de acordo com o Dicionário Francisco Fernandes de Sinônimos e Antônimos, significam exatamente a mesma coisa. O problema é que a moda do politicamente correto pegou de maneira tão forte no Brasil que o uso destas expressões já começou a virar sinônimo de piada.
Gordos já não são mais gordos, são pessoas horizontalmente avantajadas. Anões estão longe de serem baixinhos; são somente verticamente prejudicados. Negros não têm mais cor, pois agora são afro-descendentes. E pessoas com deficiência, na verdade, são portadoras de necessidades especiais. Tudo isso em prol de uma convivência pacífica, na tentativa de livrar do preconceito palavras que começam a carregar, com o passar dos anos, algum tipo de conotação discriminatória.
A moda do politicamente correto nasceu nos Estados Unidos, país que vive sob o estigma do preconceito desde o nascimento. A idéia era justamente a de combater a discriminação supostamente implícita em denominações como ''negro'' ou ''gordo''. Mas o que era apenas uma sadia reação ao preconceito acabou por transformar-se em algo igualmente racista, e em determinados momentos até caricatural.
''Nunca imaginaria alguém me chamando de 'horizontalmente avantajado'. Iria pensar que estariam me 'zoando', afirma o eletricista Demétrio Silva Rodrigues, 1,77 metro de altura e generosos 130 quilos. ''Prefiro mil vezes que, se for necessário, me chamem de gordo mesmo, mas só se for muito necessário'', brinca.
Mas a onda do politicamente correto, que entrou forte no Brasil em meados dos anos 1990, já quase não permite mais que qualquer pessoa se refira a alguém que está acima do peso como ''gordo''. Por sinal, a situação inclusive criou um empecilho linguístico: fica difícil se referir a quem não é gordo, ou a alguém que não tem uma deficiência, por exemplo, sem ser preconceituoso.
''Várias vezes conversei com pessoas que se referiam corretamente a mim como uma pessoa com deficiência. Mas quando elas iriam falar a respeito de alguém que não tem um problema, diziam que aquela pessoa era 'normal'. Ora, eu não sou normal?'', pergunta a presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Martinha Clarete Dutra, que é cega.
''As expressões politicamente corretas não passam de um mero desvio de linguagem'', explica o livre-docente em Letras pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Joaquim Carvalho da Silva. ''Um eufemismo, uma tentativa de abrandar expressões que aparentemente são muito duras'', completa.
O hábito, ainda segundo o professor, é mais comum em países de grande miscigenação. O combate à discriminação contra negros, por exemplo, foi um dos precursores da onda do politicamente correto nos Estados Unidos, justamente para se evitar o uso da palavra ''negro'' como ofensa. ''Analisados a fundo, chamar uma pessoa de negra ou afro-descendente é somente uma questão de convenção'', afirma o professor.
''É, também, uma questão de costumes. Quem visita a Europa, por exemplo, acha que o povo de lá é mal-educado justamente pelo fato de que eles não rodeiam para falar o que pensam. Por outro lado, o brasileiro tem o hábito de não gostar de ouvir as coisas como elas realmente são'', continua.
Em caso semelhante encaixam-se as referências usadas para os idosos. ''Velho'' é uma palavra quase abominada pela turma do politicamente correto. ''Idoso'' ou ''pessoa de terceira idade'' soa melhor, segundo eles. ''O politicamente correto esquece, no entanto, de delimitar as idades restantes. Quem é da primeira ou da segunda idade? E, por fim, qual a diferença entre velho e idoso?'', questiona Silva.
Equivoca-se, também, quem acredita que o preconceito é combatido simplesmente ignorando-se uma palavra na qual ele está, supostamente, embutido. De acordo com o professor, o ambiente e o contexto nos quais as expressões são utilizadas e não as palavras em si é que incutem, numa frase, a conotação preconceituosa. ''Às vezes, características como a cor da pele ou a obesidade são somente um fator de identificação de um indivíduo. Chamar uma pessoa de negra, quando não se sabe o nome dela e ela está no meio de vários brancos, não tem nada de preconceituoso'', explica, reforçado pela opinião da presidente do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Londrina, Vilma de Oliveira. ''Minhas amigas sempre me chamam de 'nega' e sei que é com carinho'', afirma.
Nem por isso, no entanto, o politicamente correto deve ser desprezado. Martinha conta que o caso das pessoas com deficiência é um exemplo claro disso, ao listar como este grupo já foi identificado ao longo dos anos. ''Fomos chamados de inválidos, incapacitados, excepcionais, deficientes físicos, pessoas portadoras de necessidades especiais e até mesmo de defeituosos'', enumera. ''Em momentos específicos, as expressões comuns são realmente muito fortes e devem ser evitadas'', aconselha Silva.
O que se comprova com tudo isso é que, antes de se sentirem ofendidas com expressões demasiadamente realistas ou eufemísticas, o que as pessoas não gostam é de extremos. ''Nenhum negro vai se sentir ofendido por ser chamado de negro, pois é o que somos. Minha filha odeia quando a chamam de 'morena'', conta Vilma.
A recomendação do professor é de sempre usar o bom senso: referir-se às pessoas com respeito, mas sem exageros. ''A própria expressão 'politicamente correto' é aplicada de forma errada. 'Política' significa astúcia, maquiavelismo, treta, artimanha. Vendo desta forma, não há como uma expressão respeitosa ser politicamente correta'', conclui o professor. Portanto, se você precisar fazer referências a algo politicamente correto, não use exatamente esta expressão; diga ''socialmente sensível', a maneira politicamente correta de ser politicamente correto.


