O peão derruba a mata no norte paranaense e faz surgir num trecho de floresta um sinal de estrada. Era o início da década de 1930, numa Londrina ainda embrionária. Quem cortou a primeira árvore não imaginava mas estava abrindo ali, no meio do nada, a Avenida Paraná: artéria urbana viária de primeira grandeza até 1977, quando os carros cederam espaço para os pedestres no coração da cidade com a inauguração do Calçadão. Sua importância, porém, não diminuiu e hoje é ainda ali que o orgulho dos londrinenses pulsa mais forte.
Nos primórdios, a terra vermelha dava o tom para os transeuntes e ditava a cadência do desenvolvimento. Londrina não interrompia sua trajetória ascendente nem mesmo quando a chuva transformava o trecho num rubro lamaçal quase intransitável: as galochas protegiam os calçados dos bravos caminhantes; e as correntes auxiliavam as charretes e os primeiros automóveis a romperem a barreira natural. Mais tarde, a poeira do primeiro cartão-postal da cidade seria coberta pelas pedras dos paralelelípedos. Depois o asfalto e, já quase no final da década de 1970, os veículos perderiam de vez o espaço para os pedestres com a construção do Calçadão. A mudança consolidava sua vocação nata para o comércio e prestação de serviços, que se expandiam no mesmo ritmo acelerado do pioneirismo dos primeiros habitantes.
A antiga avenida, agora espaço exclusivo de pessoas, já pulsava intensamente. Como o órgão vital que distribui o sangue por todo o corpo, a avenida também sempre cumpriu este papel. E é um coração grandíssimo que comporta toda a sorte de personagens. Tudo e todos cabem nos seus 20 mil metros quadrados de área, que ganha ares de metrópole com sua singular arquitetura vertical. A quantidade de pessoas que circula diariamente pelo Calçadão não é conhecida, mas, se levarmos em conta que pelo menos 150 mil pessoas passam diariamente pelo Terminal de Transporte Coletivo, é possível ter uma noção aproximada da multidão que ocupa essa região da cidade. Apenas no comércio são cerca de três mil trabalhadores que ganham seu sustento no Calçadão.
Circular pelo Calçadão, é encontrar uma infinidade de tipos com histórias das mais diversas. Logo pela manhã, os primeiros ''frequentadores'' já começam a mostrar seus rostos. Afora os moradores dos muitos condomínios residenciais, de saída para o trabalho, há também aqueles que chegam para trabalhar. Comerciantes e comerciários, ambulantes, crianças, idosos, marginais, ciganos, índios, pregadores, políticos, boêmios, moradores, viajantes, hippies... Todos se encontram por ali.
Durante a semana, o movimento começa pouco depois das 7 da manhã com o trabalho dos garis na Praça Marechal Floriano Peixoto, bem ao lado da Catedral Metropolitana, que acabou de ser revitalizada. O trabalho vai durar várias horas.
Entre 8 e 9 horas, as lojas estão todas prontas para receber a clientela. Enquanto isso, os irmãos catadores Maria Conceição Costa dos Santos, 33 anos, e José Carlos da Costa, 50 anos, recolhem o papelão que lhes garante a comida no prato há vários anos. Vindos de Fortaleza (CE), eles só acham ''ruim o frio do norte do Paraná''. Nos bares e lanchonetes, alguns engolem apressadamente a primeira refeição do dia. No trecho batizado de ''Boca Maldita'', entre as Avenidas São Paulo e a Rua Professor João Cândido, o quiosque de Fiderzioni Thomazini, 59 anos, monopoliza a venda de cafezinho desde 1983. ''O Calçadão é um cartão de visitas e não dá para imaginar Londrina sem ele'', elogia o comerciante que vende mais de 200 cafés por dia. O calçadão também é elogiado por forasteiros como o paulistano Wagner Ribeiro, 32 anos. Há 15 anos, ele se mudou para o Japão e lá conheceu e casou-se com a londrinense Darcilene, com quem tem três filhos. A família já faz planos para voltar ao Brasil e ter Londrina como morada. ''O Calçadão é ótimo e gostei tanto da cidade que até uma casa já comprei aqui'', revela.
Entre 12 e 14 horas, o coração da cidade é opção de lazer para muitos, que usam os banquinhos de madeira para um rápido descanso. Outros, menos sortudos, aproveitam o horário para fazer serviços de banco, pagar contas ou para engraxar os sapatos como faz o comerciante de gado João Paulo Cazarini, 74 anos. Bauruense que na infância, jogou pelada com o garoto ''Gasolina'' que mais tarde mudaria o apelido para ''Pelé'' e seria consagrado como rei do futebol chegou à cidade há 48 anos para ser contador em uma fazenda com 1,2 milhão de pés de café e não saiu mais. ''O Calçadão sempre foi um lugar bom de se andar. É uma vitrine, um enfeite da cidade, que já nasceu famoso'', recorda.
Continuando, o ritmo no período da tarde segue intenso até por volta das 18 horas, quando as luzes começam a ser acesas e a lojas encerram o expediente. Agora, o espaço é das crianças, idosos e de animais de estimação que aproveitam a ausência de carros e de gente para brincar fora do espaço restrito dos apartamentos. As horas avançam e o Calçadão também vai para a cama, mas até na madrugada sempre tem alguém para lembrar que o coração da cidade nunca pára de pulsar.
Os finais de semana são típicos no Calçadão. No sábado, artistas de rua tentam arrancar algum trocado dos transeuntes, enquanto ambulantes aproveitam o movimento para vender todo tipo de produto bom lembrar que nos últimos meses a Prefeitura decidiu engrossar com eles. É um bom dia para conferir ofertas. Os menos apressados aproveitam o dia para tomar um chopinho. Também é no sábado que o burburinho político ganha força. Aos domingos, artesãos inspirados colocam seus trabalhos à venda.
Entre os artistas de rua há o rapaz que faz desenhos com spray em apenas alguns minutos. Um outro aproveita a vaidade alheia para pintar retratos quase idênticos. Uma senhora idosa toca sua gaita freneticamente, concorrendo com a loja de discos que insiste em tocar sucessos do passado. No trecho do Calçadão da Praça Gabriel Martins, políticos encontram eleitores e aproveitam para se aproximar do povo. Em época de eleição, ali se aglomeram os comitês de campanha que evidenciam suas divergências ideológicas na briga por votos.
Nos domingos de manhã, o endereço mais democrático da cidade se entrega ao artesanato. A ''Feira do Feito à Mão'' é uma iniciativa recente, mas já rende lucro a quase uma centena de artesãos locais.

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