Dois princípios universais da restauração são manter a integridade da obra e não fazer inferências pessoais. Por isso mesmo, o italiano Antonio Mirabile, 46 anos, que ministrou uma oficina em Curitiba no começo do mês, não se considera artista. ‘‘E acho bom que eu não seja, pois me permite um olhar mais objetivo. Temos de manter a obra como ela foi proposta e não como gostaríamos que fosse.’’
  Há 15 anos ele mora em Paris trabalhando para museus franceses e para o famoso Centro Pompidou. Sua especialidade é o restauro de obras em papel, da qual se graduou em Florença. Entre seus últimos trabalhos, estão o restauro de dois papiros egípcios do século III antes de Cristo. ‘‘Com vapor de água, conseguimos desenrolar os materiais. Um deles, descobrimos depois, não tinha nada escrito.’’
  Para a terra dos faraós, tem viajado com freqüência, pois ajuda a implantar um museu na capital, Cairo. ‘‘Ao estruturar um projeto como esse, temos de pensar em muitas coisas. Um local assim não pode, por exemplo, ter uma rede hidráulica convencional, por causa da umidade e riscos que representa.’’
  Mirabile tem passado boa parte dos últimos anos no exterior. E, como consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), com quem tem contrato até 2018, tem viajado o mundo. Em um monastério budista na Mongólia, enfrentou um desafio inédito. Pequenos insetos eram até então adversários cotidianos no seu trabalho, mas nos manuscritos que encontrou em posse dos monges não podia simplesmente eliminá-los, pois o budismo não permite o seu extermínio.
  A solução foi trabalhar com ultra-sons em freqüências que afugentavam os invertebrados. No Iêmen, para onde viaja há cinco anos, supreendeu-se com o descuido e encontrou manuscritos sagrados entre sacos de lixo. O trabalho de restauro de um deles foi um dos temas da oficina que apresentou no Museu Oscar Niemeyer, no dia 6 de agosto, para uma platéia de mais de 70 pessoas.
  A vinda dele é ligada a um projeto da criação de um laboratório de conservação e restauro (veja box nesta página). Outros temas de sua fala de quatro horas no museu foram a marcação de obras de arte e o restauro de ‘‘Les quatre saisons’’ (‘‘As quatro estações’’), de Louis Carrogis, de 1795. Os 120 pedaços da obra em papel, que totalizam 42 metros, foram restaurados em um processo que envolveu diversas pessoas durante três anos.
  Em um primeiro momento, se fez uma documentação fotográfica, em que se buscou compreender qual era o problema. Depois, um estudo de pigmentos que envolveu um laboratório. E, em um terceiro passo, com o auxílio de outros profissionais, uma pesquisa sobre a arquitetura de época, da vida social e da história dos costumes.
  O resultado do trabalho
pode ser visto em imagem reproduzida nesta página. O artista, mais conhecido como Carmontelle, estaria feliz ao ver que o tempo, como antecipou Cazuza, realmente não pára, mas pode, em alguns casos, ter seus efeitos minimizados.
  Por vezes, porém, são as marcas do tempo o grande mérito de documentos.
‘‘Um cliente me pediu para restaurar um livro que tinha parado uma bala na II Guerra Mundial. Respondi a ele que não fazia sentido tirar o projétil dali.’’ Entre dois mil volumes, aquele era único, justamente, por ter uma bala em seu interior.

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