Como nossos avós
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Diogo Cavazotti<br> Equipe da Folha 
Em Curitiba não é difícil encontrar salões de beleza enormes, com centenas de funcionários e aparelhos importados que fazem milagres nos cabelos das pessoas. O preço costuma acompanhar esta alta tecnologia. Mas também existe quem não abre mão do atendimento mais humano e mantém os métodos tradicionais de trabalho. Há 25 anos Angelo Ferrari abriu uma barbearia, mas trabalha nesta profissão há 40. Durante este tempo ele conquistou uma fiel clientela. Hoje corta o cabelo dos bisnetos dos primeiros clientes. ''Mas só corto cabelo de homem'', avisa. Ferrari ainda guarda as primeiras ferramentas que usava no início da carreira. As famosas navalhas que funcionam com lâminas de barbear ainda estão entre as utilizadas. Mas introduzir uma pequena máquina para cortar cabelo foi inevitável para facilitar o serviço, já que as de ferro utilizadas antigamente puxavam o cabelo dos clientes.
Na barbearia é possível encontrar algumas coisas que não são tão vistas em salões de beleza, como talco, cadeiras de cabeleireiro em couro marrom e ferro, sofá com tecido antigo, escova e o potinho com espuma já pronta para fazer a barba. Toda a decoração acompanha os métodos tradicionais utilizados por Ferrari. O aparelho de som também é de um modelo antigo e toca apenas rádios AM. Os dois dentes de ouro que acompanham a arcada dentária do barbeiro já remetem ao gosto dele pelo passado.
Não pense que é só o barbeiro Ferrari que mantém os métodos antigos de trabalho. Os maiores de 25 anos com certeza lembram dos mimeógrafos utilizados para fazer as cópias das provas no colégio, utilizando o estêncil como matriz. O cheiro inconfundível de álcool dividia a opinião dos alunos. Uns adoravam, outros nem chegavam perto. Com a popularização das máquinas de xerox o método foi aposentado. Porém, no Colégio Estadual Cláudio Morelli, no Umbará, os alunos ainda fazem trabalhos e avaliações com as cópias feitas no mimeógrafo.
Antigamente as cópias eram feitas com uma gelatina. Em seguida foi adotado um álcool especial. ''A gente precisa ter uma máquina de xerox mais sofisticada. Estamos adotando a impressão a laser. Atualmente os professores somente utilizam o mimeógrafo para fazer cópias mais rápidas'', explica a diretora do colégio, Rosi Michele.
Você já ouviu falar em curso de datilografia? Uma turma de aproximadamente 15 pessoas sentadas em frente de máquinas de escrever aprendendo a digitar. Hoje estes cursos são raros de serem encontrados. Mas os novos funcionários de um escritório de contabilidade de Curitiba bem que precisariam de umas aulas. O local possui duas máquinas, uma manual e outra elétrica, usadas quando é necessário escrever em envelopes e preencher cadastro de cliente que vem através de formulários, e não pela internet.
''Atualmente já estamos escravos do computador, mas as máquinas de escrever sempre auxiliam'', conta a assistente fiscal do escritório, Jorgete Carla Alpinhaky. Ela trabalha no local há 15 anos e acompanhou a evolução da empresa. A troca das máquinas por computadores foi inevitável. ''Os funcionários novos não sabem como mexer no equipamento, principalmente na máquina manual, que não tem a possibilidade de apagar o que foi escrito. Eles passam longe'', diz Jorgete. Digitar e datilografar são coisas bem diferentes. Ela conta não ter dificuldade em encontrar peças de reposição já que encontra com facilidade lugares especializados na manutenção das máquinas.
Se existe quem ainda utiliza as máquinas de escrever, também existe quem faça cadastro de cliente em pequenas fichas impressas. Os armários de metal contendo os fichários organizados em ordem alfabética continham os dados das pessoas que fizeram crediário em lojas e consultas em hospitais. Com os computadores tudo ficou mais fácil e ágil. Mas há quem prefira manter os moldes tradicionais e garantir os métodos seguros. É o que faz a empresária Azuê Mazzari, proprietária da loja de roupas femininas Lizamont Modas. Desde quando o estabelecimento abriu, há 24 anos, ela mantém a mesma tática: toda a clientela tem uma ficha. Lá ela anota o que cada uma deve. Conforme pagam ela diminui a dívida. Mas isso só é feito com as consumidoras de confiança. ''Se eu peço cheque pré-datado elas podem se sentir até ofendidas, já que compram há muitos anos'', explica Azuê.
Glossário
Se você leu a matéria acima e mesmo assim não conseguiu compreender direito o que mimeógrafo, máquina de escrever e navalha querem dizer, a FOLHA dá uma ajuda e explica com detalhes o significado de cada uma delas:
Máquina de escrever - instrumento mecânico ou eletrônico com teclas. Quando premidas causam a impressão de caracteres num documento. Cada tecla possui uma letra ou número. Antes de encostarem no papel as teclas passam por uma fita com tinta para proporcionarem a marca na impressão.
Navalha - instrumento utilizado para cortar o cabelo ou fazer a barba. Tem corte eficiente mecanismo flexível em que a lâmina pode ser guardada sobre seu próprio cabo (característica que permite seu uso evitando acidentes).
Mimeógrafo - é um instrumento utilizado para fazer cópias de papel escrito em grande escala. A máquina existe desde 1880 e foi sendo aperfeiçoada para facilitar o manuseio.


