Como desenvolver competências
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quinta-feira, 19 de março de 2015
Diego Prazeres<br> Reportagem Local 
O desenvolvimento de competências e como aplicá-las de forma integrada no ambiente de trabalho de forma a melhorar o desempenho dos profissionais e das empresas serão o tema central da palestra que o psicólogo e professor da Fundação Dom Cabral, Sigmar Malvezzi, irá proferir na terceira edição do EncontrosFolha. Docente na área de Organizações e Comportamento Organizacional da instituição e professor colaborador dos cursos de mestrado e doutorado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Malvezzi também irá abordar as dinâmicas do processo de formação e qualificação de mão de obra profissional, assunto sensível a toda a cadeia produtiva. Maior investimento público em educação, política de educação profissional continuada e trabalho em rede são algumas ações que na avaliação do professor têm que caminhar juntas a fim de promover o desenvolvimento econômico de maneira sólida.
"Hoje, a grande parte dos serviços, mesmo aqueles considerados mais simples, é realizada por meio da integração de várias competências, que é o que chamamos de ferramenta sistema. Não se trabalha mais com serrote, alicate e etc, mas em torno de softwares e sistemas interligados em rede, às vezes com pessoas em diferentes lugares do mundo, um em Londrina, outro em Maringá e um terceiro na Suécia, por exemplo. Raros trabalhos são feitos de forma isolada. Esse tipo de situação faz aumentar as incertezas, as dificuldades de adaptação e é por isso que você tem que estar sempre investindo em competências", defende o especialista. Uma maneira de trabalhar a competência, exemplifica Malvezzi, é investir no aprendizado de uma língua estrangeira.
Ele ressalta, no entanto, que além de desenvolver as habilidades, o profissional precisa saber como usá-las de forma integrada no ambiente corporativo. Trocar informações e experiências, agir coletivamente para que as ações sejam melhor planejadas, e as metas, atingidas com mais celeridade. O professor explica que quanto melhor for o nível de preparo de uma equipe em relação às competências, maiores são as chances de saber lidar com as adversidades, resolver os problemas e atender às demandas. "Se aparece uma demanda para a qual você não está preparado, daí a importância da ação coletiva, porque um outro integrante do seu grupo de trabalho pode assumir a tarefa. A atuação é coletiva e não individual", pontua.
Desenvolver competências não implica em dominar várias áreas. Sigmar Malvezzi diz que dois pontos fundamentais para o crescimento profissional são a compreensão do contexto global da atividade em que está inserido e o desenvolvimento de alguma especialidade. "Não dá para dominar tudo com profundidade, é preciso escolher uma especialidade. E procurar de uma forma sistemática o acompanhamento da evolução do problema para não ficar para trás", adverte. Um terceiro ponto, acrescenta o professor, é o feedback. Não avançamos sem que alguém nos faça enxergar nossas limitações, nossos erros.
Em relação à carência de mão de obra qualificada no mercado de trabalho, gargalo que as indústrias ainda não conseguiram resolver, o professor da Dom Cabral afirma que é consequência do baixo investimento público em educação. "Nós temos investido no Brasil muito pouco, muito abaixo do que outros países em educação. Em um encontro internacional de que participei esses dias vi um quadro apresentado por um executivo europeu mostrando que existe um grupo de 14, 15 países que estão investindo Coreia do Sul, Noruega, Suécia, Alemanha, EUA, Canadá etc e um grupo de outros países que estão se esforçando para investir como esse. E tem um terceiro grupo que está investindo pouco em educação, e nesse está o Brasil", aponta Malvezzi, para em seguida criticar o corte de cerca de R$ 7 bilhões no orçamento do Ministério da Educação, promovido pelo governo federal no final do ano passado.
O professor também afirma que, além de não haver uma política de atração de bons alunos para a carreira acadêmica, o Brasil anda para trás ao não fomentar intercâmbios e parcerias com universidades de ponta espalhadas pelo mundo. "Educação e saúde são duas atividades que demandam tecnologia sofisticada e custam caro. O que temos que fazer? Parceria. A USP fez parceria com a Unam (Universidade Autônoma do México) e a Biblioteca Nacional da França que disponibiliza o acesso on-line ao acervo de livros dessas instituições. Eu, como professor voluntário da USP, sou um privilegiadíssimo. Ora, isso deveria ser obrigatório e estar presente em outras instituições", enfatiza. "Hoje é muito difícil confiar no conhecimento de alguém que não esteja integrado a redes. Não é fazer comício, mas assinar revistas, estimular as pessoas a ler. Eu acho que isso deveria ser promovido regionalmente para facilitar o processo. A região de vocês tem boas universidades estaduais, como as de Londrina e Maringá. Temos que aproveitar e repartir recursos. Muitos dos recursos eletrônicos podem pertencer a dez instituições diferentes, que podem programar coisas juntas", observa.


