Numa época não muito distante dava pra contar nos dedos as ruas asfaltadas. A mercearia vendia secos e molhados e tinha esperança de conseguir um novo freguês a cada dia, mesmo que tivesse que adotar a caderneta de fiado. No início era só uma porta, com tambores de arroz e feijão, algumas bebidas, frutas e verduras frescas e também miudezas. Como o negócio estava começando era difícil oferecer muita variedade. De 1980 pra cá, a vida do comerciante Augêncio Batista da Rocha, 70 anos, um baiano que trabalhou até os 23 nas lavouras de café, mudou bastante. Hoje ele é dono de um dos mercados mais populares dos Cinco Conjuntos. A história dele representa bem a trajetória de outros comerciantes que chegaram no Cincão com pouco, ou quase nada, sem muitas ambições de crescer num bairro longe do centro, ainda carente de obras de infra-estrutura.
Aos poucos, as coisas foram andando com a construção de novas escolas, postos de saúde, linhas de ônibus e sobretudo a expansão do comércio local. Seo Augêncio lembra que, em 1980, quando abriu o negócio dele na porta de casa, as opções eram poucas. ''Tinha apenas uma mercearia perto de casa e dois supermercados, um longe do outro''. Para buscar mercadoria no centro, ou na zona rural, ele usava um Corcel 75, que trocou por umas panelas velhas de um bar que tinha no Jardim do Sol. Em 87, passou o negócio para o filho, e não se arrependeu. As vendas só aumentaram. ''Ele tem uma cabeça boa, bem melhor do que a minha'', disse o comerciante, enquanto acompanhava de perto a reforma do mercado. Hoje, o estabelecimento dá emprego para quase 20 pessoas e aderiu ao método de vendas por cartão de crédito e débito. ''Desse jeito é melhor, tava tendo um prejuízo danado com as compras em cheque'', confessou. Mesmo assim, a velha caderneta, aquela usada para conquistar os primeiros fregueses, continua embaixo do balcão. ''Tenho cliente muito antigo, há mais de 17 anos. A gente vende na confiança'', contou.
O comércio dos Cinco Conjuntos é formado mesmo pelos pequenos, apesar do potencial econômico da região ter despertado o interesse de grandes corporações, como a rede de supermercados dos Muffato. O português Martinho Gonçalves Marques, 52 anos, que chegou de Lisboa junto com os pais com apenas três meses, também é um dos pioneiros do Cincão. Chegou em 1981. Ele conta que seu armarinho, que vende papelaria e aviamentos, cresceu bastante nos últimos anos. A receita? Além do bom atendimento, um detalhe que parece ser singular no comércio da região: a fidelidade do cliente. ''O pessoal se identifica muito com gente que começou por aqui há muito tempo. A gente não seria nada sem eles'', afirmou.
Seo Martinho, figura querida nas redondezas do Conjunto Semíramis, onde mora com a família desde 81, administra o negócio com ajuda da mulher e três filhos. A plaquinha O fiado é mágico, faz o freguês desaparecer , fixada na parede de entrada do prédio, parece deixar bem claro a política do estabelecimento. Na verdade, cliente antigo, que já conquistou a confiança do português, ainda desfruta dos benefícios do crediário. ''É tudo amigo da gente, vizinhos e tal. No final do mês, passa para pagar, e no outro mês começa tudo de novo'', lembrou seo Martinho, filho de imigrantes, que também colheu e plantou café quando era pequeno. Ele calcula perto de 600 clientes em sua caderneta.''Isso por baixo. Em mais de 15 anos, acho que minha clientela já girou em torno de 2 mil pessoas''.

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