Com real fraco, crescimento alto
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de dezembro de 2000
Luiz Antonio Fayet 
Em 40 anos de profissão, vivi a mais importante fase da história econômica do Paraná. Nos anos 60, serrarias, olarias, farinheiras e engenhos de mate englobavam a quase totalidade do parque industrial, até que o primeiro governo de Ney Braga, homem que associava a habilidade política à visão estratégica dominada na época, pelos militares, estabeleceu um programa de transformações admiráveis. Como resultado, já na década de 70 o Estado ingressava nos mais modernos, variados e dinâmicos ramos da indústria.
Com a arrancada do Mercosul no governo Sarney, os ajustes da economia (câmbio, abertura, reforma do Estado) deflagrados no governo Collor e o Plano Real, com Itamar e Fernando Henrique, um novo quadro se desenhou:
-Posição geográfica Com o Mercosul, as reformas iniciadas em 1990 e o congestionamento da economia paulista, a economia brasileira caminhou para o Sul, sendo o Paraná o grande beneficiário desse primeiro movimento, especialmente pelas características geográficas, disponibilidade de infra-estrutura, facilidades logísticas e o estágio de seu desenvolvimento econômico e social.
-Setor rural A geada de 1975 desencadeou profundas transformações na estrutura de produção, buscando diversificação e modernidade. As culturas tradicionais consolidaram-se, especialmente pela grande integração com a atividade industrial e a ocupação de mercados externos e internos. Assim, o setor rural/agroindustrial paranaense deverá continuar em crescimento nos próximos anos, pois as questões geo-logísticas garantem competitividade, mesmo carregando o pesado Custo Brasil.
-Setor industrial A agroindústria já considerada e o segmento madeireiro, têm no Paraná uma condição natural privilegiada. O ramo de madeiras e suas manufaturas recebeu grandes investimentos na última década, especialmente nos segmentos de chapas de fibras (MDF), papel e celulose, além dos demais segmentos que continuaram a investir, desenvolver novos produtos e mercados, principalmente para as madeiras ecologicamente corretas, oriundas de reflorestamentos.
Porém, o grande alavancador do crescimento econômico e transformador da estrutura/cultura industrial, será a substancial ampliação ocorrida no parque automotivo paranaense. Embora tal atividade já esteja implantada no Estado há mais de 20 anos, os novos investimentos têm conotação diferente. São fábricas ultramodernas, muito competitivas e produtoras de automóveis, segmento que movimenta volumes e valores de produção mais expressivos.
As montadoras, pela sua natureza, atraem para seu entorno um grande número de empresas e atividades satélites, dos mais variados segmentos, da indústria e dos serviços. É um universo fabuloso. Segundo o Sindimetal, o Paraná, que respondia por aproximadamente 4% da produção automotiva brasileira em 1999, ultrapassou 8% em 2000. Perto de 80 novas empresas sistemistas (fornecedoras diretas de componentes às montadoras), estão se instalando no Paraná. A capacidade nominal de produção de nossas montadoras deverá estar na ordem de US$ 4,5 bilhões em 2001, ou seja, aproximadamente 13% do PIB estadual de 1999.
-Setor de serviços Este setor, no caso paranaense, é reflexo direto da massa e da dinâmica da economia. Como a economia do Estado está crescendo e se diversificando, aqui também ocorrerão transformações. Prova disso é o movimento de contêineres em Paranaguá, que cresceu 60% no período 1998/2000 e a exportação de veículos, que em 2000 já ultrapassou 40 mil unidades.
Conclusão A vinda de novos e grandes investimentos internacionais, especialmente para o segmento automotivo (globais), a migração de empresas originárias de São Paulo, ligados ao ramo automotivo, a diversificação e o adensamento econômico do setor rural/agroindustrial, a atração de serviços polarizados pelas novas economias, alavancarão um forte crescimento da economia paranaense.
As oportunidades de negócios já vêm sendo desbravadas pela iniciativa privada numa velocidade admirável, determinando, por exemplo, um crescimento anual de 10% no consumo industrial de energia elétrica. A consolidação do Mercosul, apesar dos contratempos, ajudará muito.
Dentro desse novo panorama, considerando a maturação dos novos investimentos, pode-se afirmar que a região geo-econômica onde está inserido o Paraná deverá crescer com taxas superiores às que se desenharão para o País. Entretanto, se o real se valorizar diante do dólar, toda esta imensa fronteira de desenvolvimento e bem-estar poderá ser jogada pelo ralo.
Luiz Antonio Fayet; economista, membro do Conselho Regional de Economia do Paraná


