Para um estudante que paga R$ 2,4 mil de mensalidade em um curso como Medicina, por exemplo, desembolsar R$ 4 para comprar uma coxinha e um refrigerante no intervalo das aulas talvez não seja problema. Para a maioria dos universitários, no entanto, gastar perto de R$ 80 por mês em lanches na universidade está fora de cogitação. A verdade é que grande parte não tem dinheiro, mesmo que, em muitos casos, seus pais o tenham.
  A imagem do estudante ‘‘duro’’ é tão certa que há tempos a categoria conquistou o direito de ir ao cinema e teatro pagando apenas meia-entrada. Refeições a preços baixos também é bandeira histórica do movimento estudantil. Prova disso é o Restaurante Universitário (RU) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), existente desde 1971. Agora, essa luta ganhou mais um ponto a seu favor. Trata-se da cantina a R$ 1, criada há quase um ano pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) na Pontifícia Universidade Católica (PUC).
  ‘‘A cantina surgiu da necessidade de assistir o aluno, que já tem que pagar a mensalidade e não tem condições de pagar o preço dos lanches’’, diz o estudante de Direito e presidente do DCE, Leonardo Barreto de Moraes, lembrando que os alunos sempre comentavam que precisavam de uma cantina alternativa aos espaços já existentes, que oferecesse os produtos a preços mais baixos.
  A primeira cantina do DCE abriu em outubro do ano passado, no campus de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, mas funcionou só até o final do ano, já que a universidade precisou do espaço onde estava instalada. O DCE, então, decidiu reabrir a cantina a R$ 1 este ano, desta vez no campus principal da PUC, no Prado Velho, em um espaço onde estuda a grande massa dos matriculados.
  A cantina ocupa um espaço pequeno, ao lado do DCE, a uns 50 metros de alguns dos blocos onde são dadas as aulas. Mas isso não impede que fique lotada e que, na hora do intervalo, os alunos tenham que enfrentar filas imensas. Mesmo com fila, eles estão adorando a idéia, afinal, o resultado aparece mesmo é no bolso. É só fazer as contas. Antes, um lanche básico em outras lanchonetes ficava em R$ 4,40 (R$ 2,40 o salgado e R$ 2 a lata de refrigerante), contra R$ 2,30 na nova cantina. Em 20 dias, isso significa um gasto de R$ 88 nas lanchonetes contra R$ 46 na cantina, o que significa uma economia de R$ 42.

Estudantes aprovam idéia
  Para a estudante Ana Lis Jurgensen, do 3º ano de Arquitetura, que ganha R$ 250 de bolsa-estágio, essa economia é fundamental para garantir seu lanche. ‘No intervalo, eu venho sempre nesta cantina porque é bem mais barato. Antes eu pagava R$ 2,40 por um salgado’’, diz. Outra que leva o dinheiro contado é Ana Cláudia Gazoli, 3º ano de Farmácia, que é de Cambará (22 km a noroeste de Jacarezinho), vive com o irmão, e ambos recebem dinheiro dos pais para morar e estudar em Curitiba. ‘‘Meu pai manda o dinheiro para pagarmos as contas e sobra uns R$ 100 para gastar, e ultimamente nem sobra’’, diz ela, que só reclama da distância da cantina do bloco onde estuda.
  Longe ou não, sua colega de turma, Amanda Mendes, vai sempre à cantina de R$ 1. ‘‘Dá para comer dois salgados pelo preço de um’’, comemora. Outro que se diz satisfeito é Felipe Pieta, aluno do 1º ano de Engenharia Mecânica, que ainda depende do dinheiro dos pais, mas tem a mesada contada. ‘‘Antes eu só comia de vez em quando nas outras cantinas, porque ficava muito caro’’, conta.
  Ivan Shiguemoto, também estudante de Engenharia Mecânica, é ainda mais rígido. ‘‘Eu acordo mais cedo para tomar um café bem reforçado e poder economizar o que eu gastaria na cantina. Mas às vezes venho com a moçada comer um bolo de R$ 1’’, afirma.
  Quem também está satisfeito é o responsável pela cantina, Paulo Cesar Rodrigues de Oliveira. Ele calcula que vende entre 1,5 mil a 2 mil unidades de doces e salgados por dia. É a quantidade, segundo ele, que garante seu lucro, muito pequeno por item. Ao todo, ele oferece cerca de 55 itens, de todos os tipos. ‘‘Dá para vender tudo a R$ 1. Coxinha com ou sem catupiri, empada de palmito, assados, pão de batata, calzone, bolo, sonho’’, afirma.
  Muitas vezes é preciso adequar o produto ao preço. Assim, o X Salada e a pizza, por exemplo, viram mini. Além das comidas, sucos, refrigerantes de garrafa, mates e achocolatados também saem R$ 1. A exceção fica por conta do achocolatado de garrafinha e lata de refrigerante, vendidos a R$ 1,30 cada, ainda assim bem mais barato do que em outros lugares, onde o refrigerante custa em geral R$ 2. A idéia deu tão certo, conta, que até pessoas que trabalham perto da universidade já adotaram a cantina a R$ 1.

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