Com a cara da cidade
A mui leal Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, nascida em lenda quando a lança do cacique tindiquera fecundou o solo fértil do segundo planalto, completa hoje seus 305 anos de fundação. O ano era 1693 e nossos ancestrais eram índios, faiscadores de ouro e os primeiros colonos. Depois vieram os tropeiros, mais aventureiros, sonhadores. Vieram as riquezas da cultura da erva-mate, vieram os colonos atraídos pelo verde e pelo frio quase europeus. E a eles se juntaram os orientais, e eles trabalharam lado a lado com os brasileiros, numa babel de diferentes e arrastados sotaques que resultariam no leite quente que arde o dente da gente. A barreira natural do frio, hoje também uma lenda, abriu a cidade para os brasileiros vindos de longe.
Curitiba carrega, como sua gente, vários significados, várias indagações, variados desafios. A cidade que é paradigma de qualidade de vida procura suas respostas - algumas urgentes, outras a exigir um foco perfeito no milênio que se aproxima. Curitiba se discute todo dia. Discute-se todo dia a Curitiba que pretendemos realidade palpável, planejamento executado por inteiro, soluções reais orientadas para sua verdadeira dimensão: o ser humano, o curitibano que elogia e critica sua cidade simplesmente porque Curitiba é sua.
Esta edição da Folha é um sincero e carinhoso abraço na Curitiba que pulsa e se transforma como organismo cheio de vida, pois é de vida que ela é feita. Este caderno especial, embora de concepção e feitura singelas, tem a perguntar: para onde vai essa Curitiba, o que dela esperam os que aqui nasceram ou para cá vieram em busca de sua parcela de felicidade? Qual é a cara dessa cidade que para uns se faz acolhedora e para outros, fria como se os rejeitasse?
Embalada apenas por sua vocação de contar a memória e documentar este momento da história da cidade, a equipe da Folha pesquisou farta documentação, executou dezenas de filmes fotográficos e realizou mais de cem entrevistas para, fundamentalmente, ouvir essa gente que faz a Curitiba de todos os dias. Ao perguntar, encontrou respostas importantes, elogios justificados, críticas fundadas a essa urbe que se reflete na alma de seus habitantes.
Como se verá nesta edição, procuramos mostrar esse reflexo que as pessoas, instintivamente, emanam ao pensar seu habitat. Provocamos e indagamos aos curitibanos sobre a cara de sua cidade. E quem imaginasse que a despretensiosa pesquisa fosse apontar para algum ícone pós-moderno seria surpreendido pelo óbvio. A cara de Curitiba é sua principal rua, a velha Rua XV, hoje Rua das Flores. É pela Rua XV que navegam os curitibanos, indo e vindo a trabalho ou a passeio. É pela Rua das Flores que passam as pessoas e seus sonhos. E é por ela que passa a cara da cidade.
A partir desta terça-feira, a Folha entrega ao leitor um caderno diário com a cobertura da cidade e de sua região, além de uma página de cultura voltada para as atividades locais. O caderno terá a cara das pessoas que passam pela Rua XV. Terá a cara da rua, a cara de todas as Curitibas.





