O ano é 1961. E lá está a Tia Jurema assinando na Folha a coluna Feminilidades com dicas de decoração, receitas de cozinha e beleza, e novidades para a mulher como ‘‘espartilhos de borracha próprios para datilógrafas’’ e ‘‘jarras especiais para oferecer bebidas a convidados que estão assistindo televisão’’.
Criada por João Rímoli e Oswaldo Militão, Tia Jurema integrou o time dos muitos colunistas que rechearam a Folha do passado: Argus, Radialino, Marquês de Araçoiaba, Sadi Safady... O que as leitoras não sabiam é que a Tia Jurema era homem e não entendia nada de culinária. ‘‘De vez em quando saía uma receita errada e as leitoras telefonavam para falar com a Tia Jurema. Ela nunca estava, e as leitoras reclamavam. Um belo dia, a velha senhora viajou de férias e não retornou mais’’, conta Militão.
‘‘O jornal naquela época era só colunismo’’, relembra Estélio Feldman, que entrou na Folha fazendo a coluna de cinema e hoje, além do editorial, é editor de Mundo e assina a Praça Londrina. Ele conta que as páginas locais eram preenchidas por colunas, todas assinadas por pseudônimos. ‘‘O pseudônimo era exigência do diretor de Redação Nilson Rímoli. ‘‘Ele defendia uma tese contrária a de hoje: a de que para colocar o nome numa reportagem de jornal o sujeito tinha que ser muito bom, ralar muito...’’
Com os pseudônimos foram surgindo personagens que passaram a fazer parte da vida diária da cidade. Estélio Feldman por exemplo, foi o último Radialino da coluna Notícias do Rádio (mesmo sem ter rádio e tempo para ouvir os programas). Wilson Silva transformou-se no Marquês de Araçoiaba para assinar Atrás do Toco, coluna que existiu por 20 anos - de 1957 a 1977 - destilando humor certeiro em todas as direções. ‘‘Eu não tinha problemas com ninguém porque a imagem que a coluna passava era muito simpática. Nos lugares onde eu frequentava algumas pessoas só me chamavam mesmo de Marquês, e nem sabiam o meu nome verdadeiro. Era muito bom...’’, relembra.
Segundo Wilson Silva, a coluna era um estado de espírito. ‘‘Tínhamos juventude, esperança e o Norte estava explodindo. Depois tudo se acabou, enfastiou-se. Hoje já não escrevo mais porque cheguei à conclusão melancólica que a letra de forma não muda nada’’, completa.
Muito lida era também a Ronda pela Cidade, redigida por Nilson Rímoli ou outros colegas da Redação e assinada pelo personagem Argus. Foi sem dúvida, a coluna de maior longevidade da Folha - durou cerca de três décadas e só foi extinta em 1981. Começou com notas dos bastidores da sociedade. Bailes, recepções e visitas de personalidades eram alguns dos assuntos cobertos pela Ronda. Abriu espaço depois para problemas da cidade, cartas dos leitores e até campanhas. Uma campanha memorável, segundo os funcionários mais antigos, foi contra a proliferação de alto-falantes na cidade. Numa época em que quermesses, festas escolares, bares e botecos resolveram amplificar seu som preferido, Argus sentenciou: ‘‘Ser surdo, nos dias de hoje, é uma vantagem.’’
Sady Safady foi outro personagem de sucesso. Ele assinava a coluna social da Folha, e era um árabe sangue azul cujo avô havia sido o maior festeiro das Mil e Uma Noites. Chegou a Londrina num jato fretado e estava sempre em todos os lugares mas não era visto por ninguém. ‘‘Ibrahim Sued e Jacinto de Thormes, colunistas sociais do Rio, estavam em moda’’, conta Oswaldo Militão. ‘‘Aí o Nilson Rímoli criou o Sady Safady. O João Rímoli redigia a coluna e eu coletava as informações nos clubes e junto a alguns londrinenses bem informados (ver nesta edição).
No início dos anos 60 Sady Safady desapareceu e Militão foi escolhido para assumir de vez a coluna social. ‘‘Relutei mas acabei cedendo. Continuei no esporte e fazendo a coluna social durante vários anos. Mas se pudesse voltar no tempo, não mais aceitaria. Acho que o colunismo social violenta as pessoas que nele trabalham. Eles não percebem isso. Só com o tempo, muito tempo. Mas foi uma boa experiência’’, relata.

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