Colunas famosas, de gente fictícia
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de novembro de 1998
Zilma Santos 
O ano é 1961. E lá está a Tia Jurema assinando na Folha a coluna Feminilidades com dicas de decoração, receitas de cozinha e beleza, e novidades para a mulher como espartilhos de borracha próprios para datilógrafas e jarras especiais para oferecer bebidas a convidados que estão assistindo televisão.
Criada por João Rímoli e Oswaldo Militão, Tia Jurema integrou o time dos muitos colunistas que rechearam a Folha do passado: Argus, Radialino, Marquês de Araçoiaba, Sadi Safady... O que as leitoras não sabiam é que a Tia Jurema era homem e não entendia nada de culinária. De vez em quando saía uma receita errada e as leitoras telefonavam para falar com a Tia Jurema. Ela nunca estava, e as leitoras reclamavam. Um belo dia, a velha senhora viajou de férias e não retornou mais, conta Militão.
O jornal naquela época era só colunismo, relembra Estélio Feldman, que entrou na Folha fazendo a coluna de cinema e hoje, além do editorial, é editor de Mundo e assina a Praça Londrina. Ele conta que as páginas locais eram preenchidas por colunas, todas assinadas por pseudônimos. O pseudônimo era exigência do diretor de Redação Nilson Rímoli. Ele defendia uma tese contrária a de hoje: a de que para colocar o nome numa reportagem de jornal o sujeito tinha que ser muito bom, ralar muito...
Com os pseudônimos foram surgindo personagens que passaram a fazer parte da vida diária da cidade. Estélio Feldman por exemplo, foi o último Radialino da coluna Notícias do Rádio (mesmo sem ter rádio e tempo para ouvir os programas). Wilson Silva transformou-se no Marquês de Araçoiaba para assinar Atrás do Toco, coluna que existiu por 20 anos - de 1957 a 1977 - destilando humor certeiro em todas as direções. Eu não tinha problemas com ninguém porque a imagem que a coluna passava era muito simpática. Nos lugares onde eu frequentava algumas pessoas só me chamavam mesmo de Marquês, e nem sabiam o meu nome verdadeiro. Era muito bom..., relembra.
Segundo Wilson Silva, a coluna era um estado de espírito. Tínhamos juventude, esperança e o Norte estava explodindo. Depois tudo se acabou, enfastiou-se. Hoje já não escrevo mais porque cheguei à conclusão melancólica que a letra de forma não muda nada, completa.
Muito lida era também a Ronda pela Cidade, redigida por Nilson Rímoli ou outros colegas da Redação e assinada pelo personagem Argus. Foi sem dúvida, a coluna de maior longevidade da Folha - durou cerca de três décadas e só foi extinta em 1981. Começou com notas dos bastidores da sociedade. Bailes, recepções e visitas de personalidades eram alguns dos assuntos cobertos pela Ronda. Abriu espaço depois para problemas da cidade, cartas dos leitores e até campanhas. Uma campanha memorável, segundo os funcionários mais antigos, foi contra a proliferação de alto-falantes na cidade. Numa época em que quermesses, festas escolares, bares e botecos resolveram amplificar seu som preferido, Argus sentenciou: Ser surdo, nos dias de hoje, é uma vantagem.
Sady Safady foi outro personagem de sucesso. Ele assinava a coluna social da Folha, e era um árabe sangue azul cujo avô havia sido o maior festeiro das Mil e Uma Noites. Chegou a Londrina num jato fretado e estava sempre em todos os lugares mas não era visto por ninguém. Ibrahim Sued e Jacinto de Thormes, colunistas sociais do Rio, estavam em moda, conta Oswaldo Militão. Aí o Nilson Rímoli criou o Sady Safady. O João Rímoli redigia a coluna e eu coletava as informações nos clubes e junto a alguns londrinenses bem informados (ver nesta edição).
No início dos anos 60 Sady Safady desapareceu e Militão foi escolhido para assumir de vez a coluna social. Relutei mas acabei cedendo. Continuei no esporte e fazendo a coluna social durante vários anos. Mas se pudesse voltar no tempo, não mais aceitaria. Acho que o colunismo social violenta as pessoas que nele trabalham. Eles não percebem isso. Só com o tempo, muito tempo. Mas foi uma boa experiência, relata.


