Colonização do Norte mudou a face do Estado
Widson Schwartz
Especial para a Folha
De Londrina
Em 70 anos de fundação e 65 de município, Londrina tem motivado sucessivas teses e o permanente debate quanto aos interesses em sua origem. Há quem conteste o mérito aos ingleses pela bem sucedida colonização e condene o entreguismo que se traduziria na cessão de ótimas terras a preço aparentemente ridículo, apesar dos indícios de uma parceria geradora de riqueza para o Estado.
Algo muito semelhante ao que faz hoje o governo Lerner, entrando de cabeça na guerra fiscal para atrair a indústria automobilística; ou ao governo federal com as privatizações, a fim de equilibrar as contas. A grande diferença no Norte Novo do Paraná é que o governo não renunciou a impostos: usou a colonização para gerá-los.
O projeto, nas décadas de 20 e de 30, atrelou o interesse do governo paranaense, que queria melhorar a economia interna expandindo a cafeicultura, conforme a visão dos presidentes estaduais Caetano Munhoz da Rocha e Affonso Alves de Camargo. O governo cede as terras e os ingleses fazem a infra-estrutura, que exigia vultoso capital.
Governo e colonizadora juntos defendem o privilégio ao Paraná de plantar até 50 milhões de cafeeiros, apesar da superprodução que aviltava o preço e fazia outros Estados firmarem acordo de contenção; o grupo de Lovat concede empréstimo ao Estado, para aparelhar o Porto de Paranaguá e, por sua vez, o governo participa da construção da ferrovia Cambará-Apucarana, subsidiando-a com a concessão de terras. Em troca, o Estado ganhará fortunas em impostos e taxas.
De olho na renda do café, já em 1924, Munhoz da Rocha pensava em construir uma ferrovia ligando o Norte a Paranaguá, pois havia fazendeiros concluindo o ramal Cambará-Ourinhos, para terem acesso a Santos pela Sorocabana. A linha férrea interligaria o promissor Norte ao Sul, de colonização já secular.
Em 1929, o café abre a perspectiva de tornar-se a principal fonte de riqueza paranaense, conforme mensagem de Affonso Camargo ao Congresso Legislativo: Cumpre-me consignar aqui, de passagem, que o meu governo não poupou medidas de proteção à lavoura cafeeira e continuará atento a todas as suas necessidades, considerando-a, a partir do próximo exercício, 1919-1930, em face da promissora perspectiva de sua produção, que se me afigura vultosa, como a principal fonte de riqueza particular e pública do Estado do Paraná.
O próprio Camargo era proprietário da Fazenda Quati (atualmente o Shangri-lá, um dos principais bairros de Londrina), segundo Alberto Zortéa no livro sobre os 40 anos do município de Londrina. E Valter Monteiro afirma que seu avô Bertoldo Durães, a serviço de Camargo, plantou na Quati os primeiros 40 mil cafeeiros na área de Londrina, em 1927-28. Ouvi histórias de meu avô, sentado em seus joelhos, diz Valter, que está escrevendo um livro.
Depois de entrar pelo Norte Velho de Wenceslau Braz, o café havia atingido a microrregião de Jacarezinho. O que os governos paranaenses fizeram a seguir foi apressar o deslocamento da economia cafeeira que começava a sair das terras exauridas no Estado de São Paulo.
Prevalecia um consenso. Deposto Affonso Camargo, pela Revolução de 30, o interventor no Estado, general Mário Tourinho, vai à reunião dos Estados cafeeiros em 24 de abril de 1931, no Rio, unindo-se a representantes da Cia. de Terras Norte do Paraná. Juntos conseguem a franquia para o Paraná plantar até 50 milhões de cafeeiros, numa aliança com o Espírito Santo, contrariando São Paulo e Minas Gerais, que queriam impedir novos plantios. Em 1935, o interventor é Manoel Ribas, que se antecipa a um novo convênio de contenção, comunicando ao ministro da Fazenda que o Paraná não aceita limites ao plantio, indispensável à povoação do Norte.
Passados 30 anos, o Paraná se converteu no maior produtor, com 1,8 milhão hectares em 1961, quando colheu 21,4 milhões de sacas beneficiadas, cerca de 54% da produção brasileira.
Fontes das mais interessantes, para se entender a associação de interesses do Estado e da colonizada, são as palestras do engenheiro Aristides de Souza Melo no Rotary de Londrina. Em 1944, havia dois anos substituindo a Willie Davids na direção da Cia. de Terras, ele apontou a ferrovia, fundamental para transformar o latifúndio de riqueza latente em admirável e invejável canaã de riqueza potencial, notavelmente caracterizada pela subdivisão territorial em pequenas propriedades, com média atualizada naquele ano de 12,1 alqueires por comprador.
Souza Melo menciona a contribuição do governo estadual à construção de 270 quilômetros de ferrovia entre Cambará e Apucarana: Cerca de 100 milhões de cruzeiros foram gastos nessa benéfica iniciativa e o Estado, reconhecendo o alcance da obra e o esforço, não lhe foi indiferente. Contribuiu com o subsídio de 28.800 cruzeiros por quilômetro. E assim se começou a colonizar!
Kepler Palhano último dos irmãos Palhano vivo recordou recentemente que, embora a ferrovia pertencesse ao grupo de lorde Lovat, o Estado pagou pela construção.
Foi o subsídio em terras, deduz-se de uma verificação de José Joffily, exposta no livro Londres, Londrina, referente à concessão da ferrovia: ...Direito de receber por km de linha construída em tráfego, contado desde o ponto inicial no meio da ponte metálica sobre o Rio Parapanema, o valor de 28 contos e 800 mil réis correspondente a 3.600 hectares de terras calculado na base do preço de 8 mil réis por hectare. Em 44, Souza Melo atualizou a moeda: 28.800 cruzeiros.
No histórico da Cia. de Terras lê-se que o grupo de lorde Lovat obteve inicialmente 847 mil hectares (= 350 mil alqueires) ao preço total de 7 mil 776 contos de réis. É justamente o valor do subsídio a 270 quilômetros de ferrovia.
Mas o grupo de lorde Lovat pagou até duas e três vezes o valor de 8 mil réis/hectare, para se livrar de posseiros e donos de concessões que disputavam ferozmente as terras pretendidas, segundo Herman Moraes Barros, dirigente da colonizadora.





