Colônia Murici busca seu passado
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segunda-feira, 24 de março de 2008
Fábio Galão<br> Equipe da Folha 
A Colônia Murici, localizada em São José dos Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba), comemora seu bom momento econômico ao mesmo tempo em que busca se reconciliar com seu passado. Em 1878, um grupo de imigrantes da Polônia criou a comunidade, que permanece como uma das mais importantes congregações de descendentes de poloneses no Brasil e ostenta o título de grande núcleo de produção de hortigranjeiros da Região Metropolitana.
A aposentada Emma Prendin Valoski, de 83 anos, acompanhou boa parte do processo de desenvolvimento da Colônia Murici. ''Fui criada pelos meus avós. Quando minha avó morreu, eu vim para a casa do meu pai, que era comerciante na colônia. Eu tinha 11 anos. Aqui, só havia uma estradinha onde passavam duas carrocinhas. Nada de caminhão, carro. Se alguém ia para a cidade, voltava no dia seguinte ou no outro, porque a estrada era ruim'', relata dona Emma.
''Quando vim para cá eu não queria ficar. Eu estudava na 5 série e aqui tive que cursar a 3, porque a escola não ia além disso'', explica. Apesar da resistência inicial, dona Emma ficou. Hoje, enxerga uma localidade muito diferente, principalmente no que diz respeito à estrutura. ''Não tem nem comparação com o que era antes'', garante.
O padre Aloísio Fludra, pároco da Igreja Matriz da Colônia Murici, também se surpreende quando pensa no quanto a região mudou. ''Voltei à paróquia há 30 dias. Há 25 anos eu tinha saído daqui. A colônia mudou muito. As casas melhoraram, a estrutura, as plantações, os veículos das pessoas da comunidade, tudo. Melhorou também a educação, com escolas e o campus da PUC (Pontifícia Universidade Católica) perto. Muitos moradores estudaram, se articulam melhor'', compara o padre.
A produtora rural Terezinha Mikos, que mora na Colônia Murici desde que nasceu, há 49 anos, explica que a produção de alimentos, que sempre foi a base da economia da comunidade, tornou-se mais profissional, apesar de manter as características familiares. ''Antes, as pessoas plantavam pouco para colher pouco. Hoje, a produção é muito maior, plantamos e colhemos todo dia'', aponta.
Roseli Iedoski Fontes, chefe da Divisão Cultural da Prefeitura de São José dos Pinhais, mora na Colônia Murici. Ela relata que uma preocupação das pessoas ligadas à cultura e ao turismo no município é a preservação das raízes polonesas da colônia. ''Muitos hábitos se perderam. Um exemplo é a língua (polonesa), que aqui hoje é quase um dialeto'', explica Roseli.
A chefe da Divisão Cultural afirma que alguns elementos do folclore polonês, como o jantar regado a vodka e o festival de dança polonesa, ainda são mantidos, assim como algumas características da culinária da Polônia. Outros marcos culturais, porém, correm perigo, como a tradicional Festa da Colheita, que há sete anos não é realizada na comunidade, de acordo com Roseli. A intenção é reativar a festividade a partir do ano que vem.
Terezinha Mikos também acredita que a preservação das raízes polonesas já foi mais valorizada na comunidade. ''No tempo do padre Aloísio Viatrok, entre 1968 e 78, tínhamos missas, aulas e cantos em polonês'', recorda a produtora.
Ciente disso, a Prefeitura de São José dos Pinhais criou no ano retrasado a Casa de Cultura Karol Dworaczek (nome de um padre nascido na Polônia que atuou na comunidade no início do século XX). O local abriga biblioteca, objetos domésticos e para produção rural doados por famílias de descendentes de poloneses, imagens religiosas e até mesmo as portas da sede da Sociedade São José, que durante décadas foi uma espécie de centro comunitário da colônia. A Casa de Cultura também é um ponto para aulas, oficinas e encontros.
Outro marco para valorizar a história centenária da Colônia Murici será a construção de um portal na entrada da comunidade, obra que deverá ser licitada após as eleições municipais, no final do ano. ''Os mais antigos é que mantêm as raízes. Temos que fazer o possível para que os mais novos acordem para isso'', alerta Roseli Fontes.


