Colher os frutos da terra
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de novembro de 2007
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Foi seguindo os moldes dos inúmeros e populares Pesque e Pague na Região Metropolitana de Curitiba (RMC) que surgiu o Colha e Pague, em Campestre, Zona Rural de Araucária. É o mesmo sistema: os interessados vão até o pomar, colhem as frutas que consideram mais apetitosas e pagam tudo na saída da propriedade. O pioneiro e mais famoso Colha e Pague da região pertence ao fruticultor David Fila, de 58 anos, dono da Chácara Santa Rita, que logo mais, no final de novembro, terá cerca de 1,2 mil mil pés de morango, ameixa e pêssego carregados de frutas.
Só de pêssego estão plantados lá dezenas de variedades, do coral ao diamante e até uma que se desenvolveu em sua chácara, que pretende batizar de fila. ''Sou o fundador do Colha e Pague, mas digo que esse sistema começou por vontade do povo e não pela minha. Mas é um negócio que facilita minha mão-de-obra, só ofereço a cesta e ensino como deve fazer para colher. As pessoas querem ser bem recebidas e saber como produzimos'', informa ele, que espera o ano inteiro para ver o pomar cheio de cores e aromas. A colheita só acontece uma vez por ano, de novembro a dezembro, quando passam por lá cerca de 1,8 mil pessoas.
O fruticultor diz que boa parte da clientela colhe as frutas para consumo próprio, e vem de outros estados como Santa Catarina e São Paulo e até de outros países. Já para o começo de dezembro estão agendados seis ônibus de excursão de catarinenses. Os clientes costumam chegar às 9 horas e só saem às 14 horas, depois de fazer um piquenique ou uma churrascada. ''Tem uma excelente aceitação. As pessoas da cidade gostam de colocar a mão e arrancar a fruta, de sentir o cheiro, escolher o tamanho, a cor. Elas sentem prazer nisso'', conta Fila, que também produz licores de figo, morango, maçã e jabuticaba.
''O sabor da fruta que amadurece no pé é incomparável com a do mercado, que é colhida antes do tempo'', explica. ''Minha história é muito bonita aqui. Minha esposa foi trabalhar, durante quatro anos, em Joinville, até que isso aqui começasse a produzir. Foi sofrido, muito investimento. Ela que fez os contatos por lá e trouxe a clientela'', disse ele, acrescentando que boa parte das pessoas que visitam o Colha e Pague é da terceira idade. O quilo da ameixa e do pêssego custa R$ 2 e o do morango, R$ 3.
Turismo
O Colha e Pague de David Fila é um dos atrativos do Caminhos de Guajuvira, o principal roteiro do turismo rural de Araucária. Em três anos, o destino recebeu cerca de 8 mil pessoas. A prefeitura oferece o passeio pela região numa jardineira com guia, que custa R$ 3,50 (individual), e dura cinco horas. O ônibus sai todos os sábados, mas é preciso fazer o agendamento no Centro de Informações Turísticas (41-3901-5214). Um das primeiras paradas é a chácara de Silvestre Waenga, de 58 anos, produtor de flores e também dono de um Colhe e Pague de pêssegos.
A propriedade tem cinco estufas onde ficam expostos vasos com todas as variedades de plantas ornamentais e flores da época: crisântemo, ciclâmen, impatiens, gerânios, brinco de princesa, tostão, dedo-de-moça e petúnia. Os preços dos vasinhos variam de R$ 1,50 a R$ 15, valores cerca de três vezes mais baratos que os encontrados em floriculturas de Curitiba. ''As pessoas perguntam sempre os cuidados para manter as plantinhas, qual a flor adequada para a estação e sempre voltam para comprar mais'', conta a filha de Silvestre, Célia Cardoso Waenga, de 31 anos, que trabalha junto com o pai.
Seguindo o roteiro, o visitante vai encontrar o Comercial Iguaçu, em funcionamento desde 1958, ao lado da linha do trem. Lá é vendido secos e molhados, roupas, calçados, chapéus e produtos da região, que chegam fresquinhos no estabelecimento toda quarta e sábado: requeijão, queijo, manteiga, linguiça, salame, banha, patê de torresminho. ''Esse estabelecimento foi comprado pelo meu sogro e minha esposa atende no balcão desde os 12 anos. Já vendemos lenha, tecido, querosene em jacaré. Mas agora é tudo embalado, as pessoas já compram a roupa feita'', compara Henrique Czaikowski, de 63 anos.
Segundo ele, antes do acidente com um trem ''da rede'', que tombou e derramou combustível, causando uma explosão, em 1988, um pouco à frente do comércio, o local foi se esvaziando. A população se concentra no centro de Guajuvira. ''A força da explosão chegou a rachar umas casas ao meio. Lembro que peguei o meu Galaxie, coloquei a família e saímos correndo. Foi um sufoco, pensamos que os outros sete vagões poderiam explodir também'', lembra. ''Antes aqui tinha sete comércios iguais a este. Vinha muita gente pescar no rio Iguaçu'', lamenta ele, que é uma memória viva de Guajuvira e gosta de contar piadas.
No centro de Guajuvira fica uma pracinha, a Igreja Senhor Bom Jesus - a primeira toda em madeira foi erguida em 1922 - e o Horto Florestal Municipal, de onde os visitantes podem levar mudas. A parte mais gostosa do passeio fica na Chácara São Pedro. Lá é servido um farto café rural, por R$ 6 (por pessoa), com kuques, broas, queijos, requeijão, bolos, tortas, banha de porco, sucos e café. A recepção também é típica polonesa e oferece pedacinhos de pão com sal para o turista, que arremata com um gole de vodka.


