de Maringá
Pelo menos quatro anos antes do Plano Real, a Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas de Maringá (Cocamar), segunda maior do País, já iniciava um projeto de reestruturação para enfrentar as dificuldades que atingiram o setor agrícola. Nos últimos sete anos, a cooperativa reduziu o número de funcionários pela metade, mantendo pouco mais de 2 mil empregados que atuam em todas as áreas, desde a assistência técnica ao produtor até a venda do produto final no mercado interno e externo.
Com um faturamento de US$ 310 milhões em 1996, a Cocamar conseguiu ganhos expressivos com a reestruturação. ‘‘Estamos alcançando uma produção maior com menos funcionários, graças a um trabalho feito ao longo dos últimos anos’’, diz o presidente da cooperativa, Luiz Lourenço. Ele exemplifica com o setor de fiação, que possuía 720 funcionários e produzia 500 toneladas de fios ao mês. Hoje, com 675 empregados, a fiação alcança 1.300 toneladas no mesmo período.
O Plano Real afetou também as exportações da Cocamar, que no ano passado alcançaram US$ 35 milhões, cerca de 30% a menos que no ano anterior. ‘‘O problema mais grave para o setor a partir do Plano Real foram os juros colocados para a agricultura’’, diz Lourenço. Ele diz que, enquanto os preços agrícolas foram encaminhados para uma direção, os juros seguiram rumo diferente. ‘‘Os preços de produtos não voltados à exportação estão na mesma média de três anos atrás, se compararmos com os juros, chegamos em alguns períodos com uma diferença de 65%, provocando um endividamento na ordem de 70% a 80% como resultado’’, afirma.
A grande dificuldade ainda enfrentada pelo setor agroindustrial, devido ao Plano Real, segundo Lourenço, são as questões ligadas aos produtos destinados ao mercado interno. ‘‘Quando trabalhamos com produtos para exportação encontramos maiores facilidades, como juros baixos, maior liquidez e mercado garantido. Na linha de produtos de mercado interno, ainda encontramos dificuldades, pois não existe uma política de preço mínimo e falta dinheiro’’.
Ele ressalta ainda que hoje o mercado interno está em pleno crescimento, e seria preciso incentivar a produção para garantir as exportações. ‘‘A Cocamar chegou a vender para o mercado externo 80% do farelo de soja produzido, enquanto hoje estamos comercializando 50% do produto para fora do País’’, diz. Lourenço acha ainda que é preciso garantir o abastecimento interno.
A soja, que representa 40% do faturamento da cooperativa, deve ganhar um novo impulso com os planos de crescimento da área. ‘‘Estamos junto com os órgãos de pesquisa estudando a implantação da cultura no arenito, que entraria no sistema de rotação de cultura com grandes vantagens para os proprietários’’, diz. A Cocamar está incentivando também o café adensado, que já tem participação expressiva na região. ‘‘Tudo isso é uma questão de adaptação à nova realidade do mercado, e estamos trabalhando para garantir nossa fatia’’, explica.
A falta de incentivo para alguns produtos, como arroz e algodão, é outra falha apontada por Lourenço. Ele afirma que este ano o Brasil vai importar US$ 1 bilhão em algodão, por descuido do governo, que abandonou o agricultor. ‘‘O Paraná chegou a plantar 700 mil hectares de algodão há quatro anos, e hoje a área não chega a 75 mil’’, compara. ‘‘Agora essa situação tem preocupado inclusive a indústria, que lutou para manter as facilidades na importação do produto’’.
Para Lourenço é inaceitável que a Argentina, com um custo de produção maior, esteja entre os fornecedores de algodão para a indústria brasileira. ‘‘Somos obrigados a aceitar nossa deficiência na produção de trigo e comprar o produto fora, mas os demais itens da pauta de importações deveriam ser prioridade. Pelo menos em termos de Mercosul’’, diz ele.
Mas o Plano Real também trouxe ganhos para o setor, afirma Lourenço. ‘‘Temos que considerar as dificuldades a que estamos nos ajustando, e existem ganhos na estabilização, no planejamento e adequação da empresa para uma nova realidade, que exige mais competitividade’’. O que ainda falta, em sua opinião, é a melhoria da infra-estrutura com a construção e adequação de estradas, ferrovias e portos. ‘‘Tudo isso está ligado diretamente ao custo, que não conseguimos administrar isoladamente’’, afirma.
A Cocamar, assim como outras grandes empresas que passaram ou passam por dificuldades devido às mudanças na economia, estão conseguindo se adaptar à nova realidade, ele afirma. O que falta agora, segundo Lourenço, é uma contrapartida por parte do governo, dando condições para que as empresas que superaram as mudanças na economia consigam ampliar a participação no mercado globalizado.RAIO X
Setor: Cooperativa
Faturamento
- em 96: R$ 310 milhões
- Previsão para 97: Não fornecida
Exportações: R$ 30 milhões em 96
Funcionários: 2 mil

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