Cobranças geram atritos com Palácio
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quarta-feira, 10 de dezembro de 1997
Cláudio Osti Londrina 
Arquivo FolhaNa defensivaAntonio Belinati durante a última campanha para prefeito: elogios a Lerner e futuro político incerto Desde sua fundação, Londrina sempre teve um perfil diferenciado dos demais municípios do Paraná: a imagem de uma cidade onde as pessoas não se contentam com pouco, que exigem seus direitos, que contestam e que gostam de exercer o poder político é notória.
O ex-prefeito Wilson Moreira - que dirigiu o município de 82 a 88 - tem uma boa explicação para esta inquietude do londrinense. Quem veio a Londrina, para desbravar a mata cerrada, não veio a passeio. Era gente de fibra, com grande poder de crítica, de análise. Vieram pessoas dispostas a lutar e a vencer em todas as áreas, principalmente a política.
Não faltam exemplos na ainda recente história de Londrina que confirmam essa capacidade que o londrinense tem de fazer acontecer. No dia da inauguração da primeira sede própria da Associação Comercial de Londrina, em janeiro de 42, um grupo liderado pelo empresário David Dequech cobrou do interventor Manoel Ribas a construção da ponte rodoviária sobre o rio Tibagi - até então, a travessia do rio era feita por balsas. Os empresários pressionaram tanto que a ponte foi erguida em tempo recorde para a época. Em 44 ela foi inaugurada.
No início da década de 50, cansados de esperar uma resposta do governo às suas reivindicações, agricultores, empresários e políticos organizaram a Marcha da Produção. A região crescia assustadoramente, a produção agrícola era abundante mas não havia vias de acesso para o escoamento da produção. O Norte do Paraná se tornara tão importante que a primeira rodovia asfaltada no Estado foi a Londrina-Cambé, numa época que não existia asfalto nem ligando Curitiba a Santa Felicidade, lembra Wilson Moreira.
Esta constante cobrança por mais atenção do governo para com a cidade já provocou inúmeros atritos entre os políticos locais e os que ocupam o Palácio Iguaçu. Em várias ocasiões surgiram discussões separatistas. A última delas aconteceu no ano passado, quando o vereador Carlos Kita (PTB) voltou a defender a criação do Estado de Paranapanema, separando o Norte do Sul.
Na última campanha eleitoral, outro exemplo, o deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB) centrou o discurso da campanha a prefeito na discriminação que, segundo ele, Londrina sofre no governo de Jaime Lerner. Diz o deputado que a maior parte dos recursos do Estado são investidos em Curitiba e Região Metropolitana, sobrando quase nada para os demais municípios.
A discriminação é evidente. Só para citar alguns exemplos: a Biblioteca Pública do Paraná, por exemplo, foi construída e é mantida com recursos do Estado; a Cidade Industrial de Curitiba foi construída e paga com dinheiro de todos os paranaenses. E quanto a Londrina? Há quanto tempo estamos pedindo verbas para a ampliação do Hospital Universitário, que atende a uma região enorme? Se colocarmos na ponta do lápis, o governo Lerner não investiu R$ 20 milhões em nossa cidade, contra mais de R$ 200 milhões do governo de Álvaro Dias. Álvaro construiu aqui o projeto Tibagi, os hospitais da Zona Norte e Zona Sul, iniciou o Hospital de Clínicas. E o que o Lerner fez por Londrina? O descaso com a Universidade é outro exemplo, diz Hauly.
Antonio Belinati, que venceu a última eleição para prefeito, e que, na ocasião, fez o possível para amenizar os ataques de Hauly ao Governo do Estado, depois de eleito assumiu o discurso do adversário e chegou até a criar o Movimento Pé Vermelho, exigindo mais participação no primeiro escalão do governo e obras de infraestrutura para o município.
Depois de muitas rusgas, reuniões e protestos, Belinati mudou o tom, dizendo que conseguiu atingir o objetivo que era fazer um alerta a Lerner. Hoje ele considera que, apesar das dificuldades econômicas da prefeitura, a cidade está vivendo um dos melhores momentos de sua história, e tudo isso por causa da parceria entre a nossa cidade e o governador Jaime Lerner.
Quando empunhei a bandeira pé vermelha, no início do mandato, não foi incoerência, como muitos disseram. Incoerência seria se eu não enaltecesse agora o governador pelo apoio que ele vem dando à cidade, principalmente no que se refere a atração de empresas de grande porte que estão chegando e garantindo emprego para nossa população. Sem a parceria com o governo, que fornece incentivos fiscais a essas indústrias, nada disso seria possível, afirma Belinati.
O governador Jaime Lerner, por sua vez, nem quer ouvir falar nas divergências políticas e nas reclamações de falta de investimento. A assessoria de imprensa do governador diz que ele considera que este é um assunto que só existe porque é alimentado pela imprensa e não pretende dar mais declarações sobre o tema. Só o volume de recursos que está sendo investido em Londrina no anel de integração supera os R$ 200 milhões que o ex-governador Álvaro Dias teria investido na cidade, diz o assessor de imprensa de Lerner, Hudson José.


