Clima e pecuária: o calor, as costelas e a falta de informação
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sexta-feira, 27 de abril de 2001
Carla Forte Maiolino Molento 
As temperaturas mensais médias em Umuarama, segundo o Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar), de novembro a março, giram em torno de 24 graus ou mais. Ou seja, durante cinco meses por ano, a temperatura da nossa região ultrapassa o limite confortável para a maioria dos animais de produção, como aves, suínos, bovinos criados para produção de carne e vacas de leite. De fato, a temperatura, a umidade relativa e os níveis de radiação solar dentro das latitudes de 30 graus Norte e Sul são quase sempre superiores ao ideal para o bem-estar dos animais, que coincidiria com o máximo de eficiência na produção animal. Umuarama encontra-se praticamente em cima do Trópico de Capricórnio. Existem várias formas de atenuar os efeitos do clima de uma determinada região através de técnicas de manejo. Para entender este conceito, basta pensarmos em países que têm suas terras cobertas por neve e frio intenso por seis meses ou mais e ainda assim destacam-se por sua produção agropecuária. Quando pensamos nesses países, vemos o quão privilegiada é a nossa situação, por estarmos locados em terras férteis e com variações climáticas relativamente fáceis de contornar.
Obviamente, a adequação das instalações e de outros fatores de manejo dependem de dois pontos. 1) Antes de mais nada, informação saber o quê fazer e como fazê-lo; 2) Algum nível de investimento de tempo e dinheiro. Convém lembrar que algumas técnicas são extremamente baratas, como por exemplo o sombreamento natural através do plantio de árvores e a aspersão regular de água nos animais, para ajudá-los a perder calor e dar-lhes uma sensação de frescor e bem-estar. Nós, professores do curso de Medicina Veterinária da Unipar, estamos à disposição para esclarecer maiores detalhes sobre o assunto.
Outra opção para os nossos produtores é trabalhar com animais mais rústicos, que enfrentam melhor o calor por serem originalmente de regiões quentes. O gado nelore, por exemplo, está muito mais adaptado ao calor do que o gado europeu. Por que, então, tantos produtores optam por usar animais provenientes de clima temperado, tão diferente do nosso, que embutem a necessidade de investimentos em redução no impacto do calor? Porque o potencial produtivo é maior.
Os animais de clima temperado têm a capacidade de ganhar peso mais rápido, as vacas de leite de clima temperado têm a capacidade de produzir mais leite. Porém, esta capacidade de produção será tanto mais utilizada e transformada em lucro para o produtor quanto mais ele reduzir o impacto do calor. Um animal de altíssima capacidade produtiva pode apresentar péssima produção se suas necessidades não forem atendidas. Por isso, o produtor deve escolher a espécie ou raça com a qual trabalhar conforme o grau de investimento que deseja realizar.
Embora o tema deste texto seja clima, é imprescindível falarmos de um outro fator associado. Passeando pela região Noroeste do Paraná e observando os animais, salta aos olhos um problema de proporções enormes, que sem sombra de dúvida deve ser a prioridade de qualquer pecuarista. As nossas vacas leiteiras estão muito magras. Nenhum animal, independentemente do tipo de clima, tem condições de produzir se não estiver bem alimentado. O clima influencia a qualidade dos alimentos que os animais recebem.
Um pasto de verão, por exemplo, tende a apresentar mais fibra e menor valor nutritivo que um pasto de inverno. Mais uma vez, este fato em si não constitui um problema sem solução, mas requer informação por parte dos produtores. O bom planejamento de uma fazenda permite a produção de alimentos adequados em nosso clima. Dizer que os níveis de produção não são bons por causa do clima é esconder-se atrás de um plástico transparente. O organismo do animal, assim como o nosso, não produz carne ou leite do nada, ele transforma o alimento ingerido nesses produtos. Se não comer bem, não produz bem. Conhecemos o nosso clima e temos a obrigação de planejar uma oferta de alimentos adequada. A dieta que os animais recebem tem de ser calculada. Existem técnicos capacitados na nossa região e a Unipar também está de portas abertas ao produtor.
Somente com informação poderemos melhorar a qualidade de vida de nosso produtor, que tem o direito de ser bem informado com relação a que tipo de animal deve escolher frente às suas decisões em termos de investimento e, a partir desta escolha, obter orientações detalhadas sobre técnicas de manejo. Simultaneamente, a informação terá um impacto positivo na qualidade de vida de nossos animais, que têm o direito de viver bem alimentados e em situações de conforto.
A próxima vez que você passar por um pasto e puder contar as costelas de uma vaquinha preta e branca, pode ter certeza de que ela está sentindo fome constantemente, e que este produtor jogou dinheiro no lixo ao comprar um animal e não fornecer-lhe as condições necessárias para produção. O calor não é o responsável pelas costelas aparentes. A culpa é da falta de informação.
- Carla Forte Maiolino Molento é médica veterinária e professora do curso de Medicina Veterinária da Unipar


