Clientes respondem questionário superdetalhado
A máxima de que "os opostos se atraem" é pura balela para o staff da Par Ideal, composto por seis funcionários, incluindo uma psicóloga. Afinal, a essência da atividade está justamente em aproximar perfis compatíveis. O encantamento por alguém diferente, portanto, não faz parte do pacote.
Depois de descobrir a agência por indicação, internet ou propaganda, o potencial cliente faz uma primeira visita ao escritório. Conhece o sistema e passa por uma entrevista prévia, cujo objetivo é eliminar candidatos inadequados ou mal intencionados. Detalhe: a empresa só aceita heterossexuais.
Pessoas em vias de se separar, são aconselhadas a esperar um tempo para se cadastrar. O mesmo vale para quem apresenta, digamos, alguma fragilidade emocional mais grave. Estes podem até ser encaminhados para uma terapia.
Há, ainda, casos em que o candidato não consegue disfarçar a intenção de dar o golpe do baú. Segundo Sheila Rigler, da Par Ideal, vira e mexe aparecem mulheres jovens e lindas procurando homens acima de 60 anos. Como diz o outro, "Aí tem!".
Superado esse estágio, seguem-se o pagamento, a assinatura de um contrato que protege ambas as partes e outro bate-papo (mais aprofundado) com a psicóloga. Por fim, o cliente preenche uma ficha com seus dados pessoais - talvez o elemento mais importante e decisivo de todo o processo.
O documento traz um questionário completíssimo, minucioso. Do básico ao metafísico, busca-se saber de tudo: "Você fuma?", "Acredita em Deus?", "Tem imóvel próprio?", "Por que se separou?", "Usa preservativo?". Esta última, por sinal, é uma das raras perguntas em que o candidato deve revelar seus hábitos sexuais.
As fotos, obviamente, também são fundamentais. Cada ficha deve ter no máximo cinco, de preferência em poses naturais (mas há quem capriche no book profissional). Registros de viagens, sobretudo internacionais, são bastantes comuns. Vale tudo para impressionar.
Como era de esperar, o visual é o principal fator de eliminação por parte dos homens. As mulheres, por sua vez, costumam rejeitar pretendendes fumantes, de escolaridade inferior e com um histórico de casamentos desfeitos.
Na agência, como fora dela, a regra é clara: quanto maior for o nível de exigência, menor é a chance de sucesso. Em algumas situações, é tanto preciosismo que os profissionais têm de interferir.
Como no caso da cliente poliglota que só queria um parceiro fluente em cinco línguas. Passou meses esperando até que foi chamada para conversar com a psicóloga. Acabou topando sair com um sujeito que domina dois idiomas - e está feliz com ele.
Quem é quem - Perfil cadastrado, o computador se encarrega de procurar fichas compatíveis. Mas apenas com relação a detalhes básicos, como preferência por cor de pele, estado civil, escolaridade, etc. O caldo da receita fica mesmo por conta do feeling da equipe, que sabe quem é quem somente de olhar as fotos.
A cada 20 dias, os clientes podem ir ao escritório analisar até cinco fichas de pessoas supostamente parecidas com eles (nada é feito pela internet, ao contrário de outros serviços mais recentes). Se gostou de todas, escolhe a preferida, que também é consultada. Caso os dois queiram se encontrar, a agência passa o telefone da mulher para o homem, que deve ligar e fazer um convite.
Depois do encontro, o staff entra em contato com ambos. Se querem continuar saindo, seus perfis deixam de ser mostrados para os outros cadastrados. Quando não há "química", volta-se à estaca zero.
Em uma terceira situação, a mulher gosta do homem, porém não é correspondida (ou vice-versa). O candidato, então, tem duas opções: dar o fora "na lata" ou pedir para o escritório terceirizar o trabalho sujo.
Nem sempre a conduta do cliente é exemplar, em especial a dos homens. Há exemplos de pessoas desligadas da agência por cometerem grosserias imperdoáveis. Sheila lembra do médico que se decepcionou com uma moça logo que ela entrou em seu carro. Sem cerimônia, deu a volta na quadra e a deixou em casa. Foi sumariamente expulso.
No mais, há toda uma etiqueta para o primeiro encontro. Os homens devem pagar a conta (sugerir uma divisão, segundo a empresária, é assinar a setença de morte). Já as mulheres são aconselhadas a não cederem aos apelos por sexo, pois podem estar sendo testadas.
Caretice? Pode ser. Mas o fato é que todos os cadastrados buscam um relacionamento sério, à moda antiga. Mesmo pagando por isso.
Sobre essa "mercantilização", Sheila ressalta que a mediação de casamentos sempre foi comum ao longo da história, nas mais variadas culturas. Ela só não pode adotar o lema "satisfação garantida ou seu dinheiro de volta".
"Uma vez, uma cliente reclamou da agência, dizendo que nós indicávamos para ela pessoas iguais às que estão na rua. Tive de responder que somos apenas mediadores, e não uma fábrica de pessoas", brinca. (O.G.)





