Classe social pesa na escolha
Apesar da liberdade para definir sua fé, a classe social ainda é um fator importante na escolha e na forma como os jovens encaram as religiões. Enquanto os de classe mais baixa estão mais propensos a seguir as igrejas pentecostais, os jovens das classes média e alta parecem mais livres e interessados em crenças pouco ortodoxas para os padrões do brasileiro. ''São os crentes sem religião, ou os agnósticos, como muitos se definem. Levam mais em conta a fé e a espiritualidade do que as instituições religiosas. Entre jovens com maior acesso à educação e a bens culturais, esse perfil aparece com maior frequência'', diz o teólogo.
Para o cientista político Cesar Romero Jacob, da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), há um núcleo de jovens urbanos e de classes média e alta que se encaixa nesse deslocamento das religiões tradicionais. No entanto, ele alerta que, seguindo a tendência da população em geral, o jovem das periferias das grandes cidades tende a trocar o catolicismo pelas igrejas evangélicas. ''São as evangélicas neopentecostais que estão atraindo esses jovens da periferia, que se mostram presentes onde há falhas na oferta de serviços por parte do Estado, e onde a igreja católica não chega'', analisa.
No mapa da religião em São Paulo, traçado pelo pesquisador da PUC-Rio a partir dos dados do IBGE, a divisão fica clara: o centro expandido e a zona oeste são majoritariamente católicos (cerca de 83% da população se declara católica), há bairros isolados, como a Liberdade, onde prevalece o budismo, e a zona leste é em sua grande maioria evangélica. ''A moral rígida das evangélicas neopentecostais, como Assembléia de Deus, acaba sendo um porto-seguro para essas populações, que se sentem inseguras em meio à falta de infra-estrutura e acesso a bens das periferias'', afirma Jacob.
Wellington Silva de Oliveira Sanchez, de 21 anos, passou a frequentar a igreja evangélica Bola de Neve, conhecida por reunir entre seus fiéis um número grande de jovens e de jovens surfistas, depois que um vizinho comentou com ele sobre os cultos. ''Ele falava que encontrava forças lá, que saía diferente depois do culto'', conta. ''Fiquei curioso, pensei que, se fosse tão bom assim, eu também queria isso'', diz. Desde a primeira visita, já se passaram dois anos - a igreja, de forma consolidada, existe há cerca de dez. ''Vou toda semana, depois que largo o trabalho. Conheci minha namorada lá também.''
Sanchez trabalha como motoboy para uma empresa de Pinheiros (zona oeste da capital). Ele costuma frequentar os cultos da igreja na Lapa, uma vez por semana, pela proximidade com o trabalho. Tem dias que, por causa da entrega, perde o horário. Aí, vai direto pra Penha (zona leste), onde mora com a mãe e a irmã - que nasceram católicas, foram batizadas, mas hoje frequentam cultos da Igreja Universal. ''O que eu mais senti é que lá te ajudam a acreditar que dá pra ser melhor, a vida, o futuro'', diz, numa das poucas frases que não enche com gírias ou interjeições.
As mensagens da igreja, que tem espalhadas pelo salão pranchas de surfe, são realmente positivas. Um dos trechos das mensagens, assinada pela apostola Rina, fundadora da igreja, diz que ''temos a tendência de ver somente os nossos defeitos. Se, ao invés de você ficar vendo os defeitos das pessoas, começar a olhar para o potencial delas, você viverá bem melhor''. Em outra parte, afirma que ''devemos visualizar todas as situações da nossa vida com potencial, nosso trabalho, nosso casamento e tudo mais''. (E.S. e S.I.)





