O boom da cirurgia bariátrica surpreende até cirurgiões pioneiros neste tipo de operação, como Fernando Barroso, que levou para o Rio a nova técnica introduzida no Brasil pelo médico paulista Arthur Garrido e por uma equipe multidisciplinar da USP. Ele reconhece que o crescimento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica, de 30 para 600 membros em cinco anos, é ‘‘mais um inchaço que um desenvolvimento’’. Hoje, a perspectiva de uma explosão de cirurgias caras e pagas por planos de saúde –só no Rio são 86 mil grandes obesos de estado grave– atrai os médicos como há alguns anos ocorreu com a cirurgia plástica.
  ‘‘A cirurgia bariátrica favorece a cirurgia plástica, porque cada intervenção exige depois de três a cinco plásticas, que já começam a ser aceitas por alguns planos de saúde’’, diz Barroso.
  A tendência da cirurgia bariátrica, para ele, é crescer ainda mais. ‘‘A obesidade só cresce. Não há tantas outras indicações cirúrgicas como a bariátrica. Há filas de obesos para operar até no Piauí. No Rio, são três mil na fila’’.
  Para Barroso, cuja equipe já operou 830 obesos desde 1997, o boom da cirurgia bariátrica deve abrir os olhos da sociedade para uma doença perigosa e desprezada: a obesidade, que atinge 17 milhões de brasileiros, dos quais um milhão em estado grave.
  A professora Maria Lucia Bosi, psicóloga, nutricionista, doutora em Saúde Pública e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Comportamento Alimentar do Nesc da UFRJ, alerta para o risco de um mercado da cirurgia bariátrica, que poderá, num futuro próximo, ser novo objeto de consumo: alguém que está obeso poderá ser estimulado a ganhar mais peso para ter a indicação médica da cirurgia.
  A ex-dona de casa Eliana Posato é uma das centenas de cariocas que estão no mundo dos magros. Há quatro anos, fez a operação e perdeu 78 dos 138 quilos. A primeira atitude foi desfazer o casamento de 28 anos: ‘‘Quando fiquei magra, não podia ficar com um marido que não queria sair de casa’’.
  Eliana foi uma das 18 pacientes que fizeram a cirurgia do anel gástrico. É a cirurgia menos invasiva e a mais cara, se feita por laparoscopia. Para o médico Fernando Barroso, dos 18 que fizeram a operação do anel no Hospital de Ipanema, três pacientes o perderam – um deles absorvido pelo estômago e depois evacuado. Mas ela seguiu à risca as recomendações e hoje preside a Associação de Apoio a Grandes Obesos (Aago).
  O cirurgião Fernando Barroso adverte que o paciente não deve se iludir: ‘‘Costumamos dizer ao paciente que ele trocará uma doença por outra. Uma é incapacitante, tira sua alegria de viver, sua auto-estima, sua cidadania e sua saúde. Outra é uma doencinha que aproveita mal os alimentos, as vitaminas, os sais minerais e, por isso, vai ter que tomar uma polivitamina profilática para o resto da vida’’.

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