Cirurgia é considerada complexa até hoje
Fatores associados ao nascimento e vida das irmãs siamesas Marta e Maria fazem do caso registrado em Londrina um dos mais raros já vistos em toda a história da medicina. Além do cordão umbilical único, que encontra somente um precedente igual no mundo, em 1970 a cidade de Londrina não contava com médicos especializados em cirurgia pediátrica. A necessidade de separação das duas irmãs, no entanto, era evidente e, apesar de acreditarem em grandes riscos de morte para as duas crianças, os médicos do hospital sempre se mantiveram confiantes quanto ao sucesso da operação.
Marta e Maria nasceram de uma cesariana realizada pelo médico João Fernando Góis. Recém-chegado na cidade, o cirurgião lembra do susto que tomou quando tentou retirar as crianças da barriga da mãe. ''Isabel não havia realizado nenhum exame pré-natal. Quando chegou ao hospital, percebemos que eram gêmeas, mas sequer desconfiávamos que eram siamesas. Quando abrimos a barriga, percebi a mistura de pernas e braços'', brinca. ''Elas nasceram grandes e saudáveis para o padrão de gêmeas'', recorda.
Nos seis meses seguintes, a equipe médica da Santa Casa dedicou-se a avaliar as condições para a realização da operação. A equipe, chefiada pelo médico José Maria Pereira Rezende, constatou que, além da ligação externa, feita pelo períneo das crianças, o intestino grosso das irmãs era único e comum às duas. ''Além do intestino, as bexigas eram coladas, o que fazia da operação um procedimento de alto risco e complexidade, até mesmo nos tempos atuais'', afirma o médico. A separação foi realizada com sucesso em janeiro de 1971, por uma equipe formada por dois anestesistas, três cirurgiões gerais e um cirurgião plástico. ''Iniciamos a operação sem avisar a imprensa, que acompanhava o caso de perto. A Folha de Londrina, na época, ficou irritada com a gente'', lembra, divertindo-se.
O intestino comum obrigou uma das crianças a receber uma sonda, utilizada pela criança nos três anos seguintes. Neste período, uma nova fase de estudos foi iniciada por Rezende. ''Precisávamos construir um ânus para a criança, já que o sistema excretor não estava completo para uma delas. Fizemos contato com um médico australiano, que dominava uma técnica nova para o procedimento. Ele nos deu assessoria nesta hora'', conta. A menina foi levada para o Hospital da Cruz Vermelha no Brasil, em São Paulo, e novamente operada, com sucesso. As duas crianças ainda viveram na Santa Casa de Londrina por mais dois anos, acompanhadas pelo pediatra Toshio Igarashi, até serem liberadas para morar com a mãe.
Marta e Maria elevaram Londrina a um patamar de referência em operações semelhantes realizadas no País. Dois casos parecidos ao das duas meninas foi registrado no Hospital Universitário (HU) nos 10 anos seguintes, ambos tratados com sucesso. Na ocasião, o então superintendente do hospital, o médico Lúcio Marquese, comemorou as operações como ''grandes oportunidades para acúmulo de experiência no segmento''. Nos registros da Biblioteca Municipal da cidade, constam sete procedimentos semelhantes. Três deles tiveram sucesso total. Dois dos casos foram marcados pela morte de um dos gêmeos e nos restantes, as duas crianças morreram.
''Acredito que um caso de gêmeas siamesas como este só aconteça uma vez em cada 10 milhões. Eu mesmo só vi coisa semelhante na literatura médica. Cheguei a apresentar o caso em um hospital americano especializado em pediatria e mesmo lá, onde eles contavam com cerca de 1,5 mil leitos, eles ficaram surpresos. Ainda assim, creio que a Santa Casa, em 1970, já dispunha de recursos suficientes para realizar a separação'', garante.(A.M.)





