Cinema na boléia
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terça-feira, 10 de junho de 2008
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
Depois de dois dias e meio de viagem desde Vitória da Conquista, interior da Bahia, trazendo mamão na carroceria para o Ceasa de Curitiba, e sem sonecas no caminho superiores a duas horas, o caminhoneiro Juliano Fagundes estava cansado. ''Mas, antes de dormir, vou assistir à Tropa de Elite''. No Posto 100, em frente ao Ceasa de Curitiba, às 19 horas da última quarta-feira, uma noite fria e chuvosa, havia uma sessão marcada do filme brasileiro que teve mais de dois milhões de expectadores nos cinemas.
A curiosa estrutura montada para a sessão de cinema é de box-trans, um tipo de coluna de alumínio normalmente utilizada para estandes de feiras e leva seis horas para ficar de pé. ''Para desmontar leva uma hora a menos. É mais fácil'', conta Renato Jockheck, o motorista do caminhão que há 49 dias leva o cinema e a sala portátil com uma tela de 150 polegadas na carroceria.
O espaço, com cem cadeiras, é coberto, o que espanta um pouco do frio da noite. Do lado de fora, uma lona, enorme e que ajuda a tornar o espaço fechado, anuncia: ''Não é história de boléia. A entrada é grátis''. ''De graça, topo até injeção na testa'', brinca um caminhoneiro presente.
Mas, se é gratuito, tem alguém por trás. ''É uma idéia que alia divulgar a marca e promover o cinema nacional'', explica Luciano França, o coordenador de marketing da Tortuga, empresa de câmaras de ar que está bancando o projeto chamado de Estrada de Cinema. A idéia foi a forma encontrada para chegar mais próximo de seu público, difícil de alcançar por outras mídias.
Além de promoção, a empresa ganha ao recolher um questionário após a exibição dos filmes. ''É uma pesquisa que pretende mapear esse universo. Quem é e o que pensa o caminhoneiro brasileiro?'', diz mais uma vez o coordenador de marketing da empresa. Ao final das sessões, que já passaram por dez cidades dos três estados do Sul, 3,5 mil caminhoneiros preencheram o questionário, motivados pela entrega de brindes.
O caminhão-cinema esteve em Curitiba desde segunda-feira e ficou por quatro dias, apresentado filmes diferentes a cada noite. Segundo Jockheck, que dirige o caminhão do projeto, na lista de favoritos nas sessões, estão as comédias ''Os Normais'' e ''Muito gelo e dois dedos d'água''. Mas a noite de quarta foi do sucesso maior, Tropa de Elite.
A platéia veio chegando aos poucos, desconfiada. O frio da noite e da situação inusitada é lentamente substituído por risadas com os comentários de Capitão Nascimento. Quando o projetor falha, a reação é imediata. ''Cadê o Baiano?'', brinca com um dos personagens do filme uma voz da platéia, repleta de olhares atentos.
Ao final, 31 pessoas estavam na sala, pouco mais do que no início da sessão. Juliano Fagundes, cansado, refletiu sobre o filme. ''O interessante foi ver que tem tudo haver com o nosso dia-a-dia''. Ele comparou a corrupção dos policiais do filme com a realidade enfrentada nas estradas brasileiras. Depois de dormir pela primeira vez em três dias, Fagundes vai para Contenda para carregar o caminhão de batatas e seguir viagem. Desta vez, o destino é Feira de Santana, também na Bahia.
Para a sessão seguinte, da comédia ''Sexo, amor e traição'', das 20h30, os primeiros a chegar foram Everton Gervazoni, 22, e Willian Binotti, 23. Na corroceria, trouxeram alimentos industrializados de Presidente Prudente, interior paulista. ''Nós vamos bastante ao cinema, pois somos jovens. Mas, para os caminhoneiros mais velhos a idéia é melhor ainda. Quando chegam em casa, têm que atender à família e não têm esse tempo'', comenta o mais novo da dupla.
O caminhão-cinema segue para Registro e para outras cidades do interior de São Paulo. Ao final de 90 dias na estrada, termina o seu percurso, retornando para Curitiba.


