A produção audiovisual de Curitiba obteve destaque nacional nos últimos anos. O cineasta Fernando Severo, amplamente premiado com os filmes ''Visionários'' e ''Paisagem de Meninos'', abriu as portas para que novos profissionais locais fossem reconhecidos. Mas para que o cinema da Capital possa render bons frutos, é necessário que a classe artística acompanhe este crescimento. E é isso que a nova safra de atores curitibanos apresenta.

Um dos exemplos é Rodrigo Ferrarini, integrante da Pausa Companhia de Teatro. Ele embarca amanhã para a Rússia onde irá representar a equipe do filme ''Estômago'' no Festival Internacional de Cinema de Moscou. Ferrarini volta na próxima quinta-feira, quando vai dar continuidade aos ensaios do espetáculo ''Mez da Grippe''.

Ferrarini é formado pelo extinto curso de ator do Colégio Estadual do Paraná. Ele atuou em filmes como ''Do tempo que eu comia pipoca'', ''Eternamente'' e ''Nós''. Nos palcos o currículo do ator inclui ''Febre - um sintoma cênico'', ''Apenas o fim do mundo'', ''Aperitivos'', ''Pico na veia'', ''Memória'' e ''As Fabulosas''.

No meio da tumultuada agenda o ator conversou com a FOLHA sobre o atual momento da sua carreira.

FOLHA- O que você espera da reação dos russos quando assistirem ao filme?
Ferrarini - A expectativa é grande. É um orgulho representar o Brasil em um lugar onde a cultura é tão diferente da nossa. É importante para o País e para Curitiba. ''Estômago'' não possui os clichês dos demais filmes brasileiros que mostram o sertão nordestino e as favelas do Rio de Janeiro. Eles irão ver uma ótima história, rica em detalhes e provocações. Curitiba, depois de ''Estômago'', é uma referência em cinema. Fazer parte disso é ótimo.

FOLHA - Você interpreta um presidiário no filme. Como foi a preparação do personagem?
Ferrarini - O filme discute a questão do poder. Ensaiamos dentro do Presídio do Ahú, logo após ter sido desativado. Foi uma semana de ensaio. As fotos, os objetos, as pulgas, a sujeira e o cheiro ainda estavam lá. Eu não fazia idéia de como era estar dentro de um presídio e isso me tocou muito. Você percebe como eles são tratados, como se fossem animais, com violência. Eles ficam em um ambiente desprotegido. É um espaço que destrói socialmente o indivíduo. Foi impossível não sentir a solidão dentro da cela, mesmo sabendo que ali haviam em torno de 15 pessoas.

FOLHA - Curitiba então irá crescer ainda mais no setor cinematográfico?
Ferrarini - Tem muito curta-metragem sendo feito aqui. Mas eles não chegam ao grande público. É restrito aos festivais de cinema. Isso não aconteceu com ''Estômago''. Os produtores acreditaram no projeto. A carreira do filme começou no Festival do Rio. Ele ainda está em cartaz em São Paulo.

FOLHA - A sua carreira agora migra para o cinema?
Ferrarini - A minha vida é o teatro. Sou um ator de teatro. Em Curitiba ainda existem poucas oportunidades para fazer cinema. Quando aparece agarramos a chance. Faço teatro profissional desde 1998. Como as peças em que atuo exigem dedicação exclusiva, às vezes parto para a publicidade para ganhar dinheiro. Em algumas situações, o que ganho em um dia de trabalho com propaganda é mais do que o meu salário durante um mês no teatro. Este ano fiz, em média, uma propaganda por mês.

FOLHA - Você tem mais um filme inédito.
Ferrarini - Sim. É o ''Mystérios'', do Beto Carminati, inspirado na obra do Valêncio Xavier. O filme está pronto e interpreto um padre.

FOLHA - Como é a peça que você está ensaiando?
Ferrarini - Chama ''Mez da Grippe'', também do Valêncio Xavier. A Pausa Companhia de Teatro, da qual faço parte, convidou o diretor carioca Moacir Chaves para este trabalho. Estréia em 24 de julho no Novelas Curitibanas. Estamos construindo os personagens durante os processos de ensaios. O Chaves é o melhor diretor de atores do país.

FOLHA - E qual é o melhor diretor desta categoria em Curitiba?
Ferrarini - Márcio Abreu.

FOLHA - Você pretende sair de Curitiba para dar continuidade ao seu trabalho como ator?
Ferrarini - Vou para onde o vento me levar. Não tenho planos de sair daqui. Temos que construir nossa história em Curitiba. Muitas vezes as pessoas boas vão embora e a cidade perde com isso. Acho legal fazer um trabalho aqui e levar para outros lugares. É importante ver como nosso trabalho é visto em Manaus, por exemplo. Quando pensamos na companhia de teatro Galpão, automaticamente nos remete ao Estado de Minas Gerais. É um grupo respeitado, assim como companhias de Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro.

FOLHA - A opinião da crítica é importante na carreira de um ator?
Ferrarini - Não digo que não me preocupa. Mas não me abala. É importante ter um material impresso falando bem do seu trabalho. Precisamos de boas críticas. Mas nada é unânime. Sempre existem pontos de vista diferentes. Mas não mudaria o meu trabalho de acordo com a crítica.

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