Cincão mostra a outra face da moeda
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sexta-feira, 10 de dezembro de 2004
Guilherme Gouveia<br> Reportagem Local 
A Zona Norte de Londrina, com cerca de 106 mil habitantes, dividida em 10 microrregiões, entre elas os Cinco Conjuntos, até parece uma cidade. Os indicadores econômicos explicam porque o conceito de ''cidade dentro da cidade'', tão difundido até hoje, permanece corrente. A região arrecada, por exemplo, mais Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e Imposto Sobre Serviço (ISS) do que municípios importantes do Norte do Estado. Em outros setores, como indústria, comércio e serviços, os números também rivalizam com cidades da mesma faixa populacional.
Neste ano, a região arrecadou em IPTU perto de R$ 13 milhões. Em ISS, mais R$ 6,5 milhões, segundo a Secretaria Municipal de Fazenda. Cambé, com uma população de 96 mil pessoas, recolhe menos: R$ 2,7 milhões de IPTU e R$ 1,1 milhão de ISS, de acordo com o cadastro de 2002 do Ministério da Fazenda, disponível no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Movida pela solidez do parque moveleiro local, Arapongas 96 mil moradores, de acordo com estimativa de 2004 também apresenta números inferiores. Segundo o IBGE, arrecadou R$ 2,8 milhões em ISS e R$ 1,9 milhão em IPTU, também em 2002.
As duas cidades perdem ainda para os Cinco Conjuntos, onde se concentra a maioria da população e do comércio da Zona Norte. De acordo com a Secretaria de Fazenda, o Cincão foi responsável por injetar no orçamento municipal cerca de R$ 7 milhões de IPTU e R$ 3,5 milhões de ISS.
De acordo com um levantamento aproximado da Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel), a Zona Norte abriga hoje 348 do total de 2.326 indústrias instaladas em Londrina. Dos 10.275 estabelecimentos comerciais, 1.324 estão na região, que também acolhe praticamente 10% das empresas prestadoras de serviço da cidade: 908 contra um total de 9.960.
A vizinha Cambé possui números semelhantes nos três setores pesquisados pela reportagem da Folha: 401 indústrias, 1.175 estabelecimentos comerciais e 655 prestadoras de serviço.
Além da expansão industrial e comercial, a região passa por uma fase de crescimento residencial. Somente nos últimos seis anos, 35 loteamentos foram criados na Zona Norte. Isso representa, segundo o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), mais seis mil novos lotes residenciais.
A Codel trabalha também para transformar a Zona Norte em um importante pólo gastronômico nos próximos anos. Segundo a companhia, existem atualmente 18 pontos, entre restaurantes e outras atrações, instalados principalmente no Heimtal, Warta e arredores, que trazem divisas para a região, além de se tornarem um dos principais pontos de turismo da cidade.
A Saul Elkind, principal artéria do Cincão, é uma avenida cheia de histórias pra contar. É nela que se concentra o comércio. São farmácias, lojas de calçados, confecção, supermercados, armarinhos, bares, lanchonetes, imobiliárias... Tudo o que transforma a Zona Norte, onde se localizam os Cinco Conjuntos, em uma região independente. ''Por aqui, não tem muito luxo, não têm grandes lojas, mas o necessário é possível encontrar. Aqui a gente acha de tudo um pouco'', conta seo Augêncio Batista da Rocha (leia texto na página 2), que aprendeu a ler e escrever com o trabalho de comerciante. ''Não terminei nem o primário''.
Na Saul, tem a feira livre do domingo de manhã, um corredor plural de meio quilômetro, gente de toda parte, que se tornou ponto de encontro da Zona Norte e opção de complementação de renda. É o caso do aposentado Florêncio Francisco da Silva, 65 anos, morador do Conjunto Aquiles desde 1980. No fundo da casa, ele improvisou uma fabriqueta onde produz de forma artesanal sandálias e chinelos de couro. Produz em média 20 pares por semana. Florêncio também vende no Camelódromo, no Centro da cidade. Na Saul, ele consegue lucrar por mês até R$ 300,00. ''Para tirar isso, tem que trabalhar o dia inteiro de porteiro. Mas na minha idade, é difícil arrumar emprego'', lamentou.
Já o feirante Santin Corsi, 55 anos, que mora no Semíramis, tira todo o sustento da família do circuito de feiras da cidade. Ele tem uma Kombi com uma oficina de conserto de eletrodomésticos na carroceria. Os serviços são variados: troca de cabo e recuperação de panelas velhas, regulagem e troca de pino de panela de pressão. Em dia de feira boa, ele fatura em média R$ 280,00; em dia ruim, varia de R$ 70,00 a R$ 100,00. Colocar um cabo na leiteira sai por apenas R$ 3,00. Arrumar uma panela de pressão, serviço que absorve a maioria da demanda do negócio, custa em média de R$ 7,00 a R$ 8,00. Ele dá um conselho para as donas de casa: ''Avisa aí no teu jornal para limpar direitinho o pino central da panela, e o peso também. Se não, vai ser melhor pra mim, vou ter mais serviço''.


