CIDADES PEQUENAS - Um jeito sertanejo de ser
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de agosto de 2006
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Sabiá quando canta dizem que é só tristeza e o coração do capira, ao pegar na viola em cada toada, representa uma saudade. Alguns afirmam que esse luar encantado e nostálgico do universo sertanejo se espraia até entre os mais convictos cidadãos urbanos que - mesmo sem nunca terem morado no campo - sentem-se saudosos, porque têm latente alguma raiz rural.
Iluminados por um cotidiano envolto numa nuvem de estresse, os moradores dos grandes centros urbanos perderam alguns costumes e tradições que ainda são mantidos em pequenos povoados rurais.
Apesar do progresso já estar lançando fumaça sobre esse dia-a-dia, o campo ainda faz silêncio para ouvir o sabiá cantar e o caboclo recitar a sua poesia diária, escrita com o trabalho na roça, a fraternidade existente entre vizinhos, as brincadeiras infantis e a arte de contar causos.
Para escutar um pouco dessa melodia do cotidiano das pequenas cidades, a equipe da Folha visitou alguns vilarejos rurais na divisa com São Paulo, entre os quais Socavão, Tanque Grande, Caraguatá e Pinhalzinho, além do município de Doutor Ulysses.
Na viagem por uma faixa de 200 quilômetros, percorrendo estradas vicinais das PR 090 e 092, o deserto humano e sócioeconômico de alguns municípios paranaenses do Vale da Ribeira, evidencia o isolamento de algumas comunidades rurais. Uma realidade ilustrada por situações semelhantes a dos moradores de Caraguatá, pequeno povoado de Doutor Ulysses (131,45 quilômetros ao norte de Curitiba), um núcleo de cerca de 300 famílias, curiosamente formado por 90% de evangélicos e com significativo número de pessoas, parentes entre si.
A última fronteira de riqueza que a equipe de reportagem cruzou, para conhecer o cotidiano de quem optou por viver afastado de grandes centros urbanos, foi a cidade de Castro (41 quilômetros ao norte de Ponta Grossa).
Com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,736, o município tem um Produto Interno Bruto (PIB) per capita de 9,187.
Ao contrário de Doutor Ulysses que, com um IDH de 0,627 e PIB per capita de
7.627, registrou até 2005 um fluxo migratório de 6.989 pessoas, com projeção de aumentar esse êxodo para 7.569 até 2010.
Nesse cenário com grande potencial de desenvolvimento do ecoturismo, a extração vegetal de pinus, uma das maiores atividades econômicas da região, aumenta a sensação de desertificação.
Ao percorrer imensas áreas de reflorestamento, a única paisagem que a vista alcança é o mar verde. Mas que perde a intensidade ao morrer nas clareiras abertas pelo trabalho incessante das motosserras, tornando o recorte de montanhas, que abrigam cavernas propícias aos esportes de aventura, um tanto desolador.
Incrustado nessa região, em que a ocupação do solo começou no início do século, o cotidiano dos moradores de Caraguatá é singular nesse contexto. Apesar da falta de emprego ser uma reclamação semelhante a dos nativos de outras povoações, boa parte é funcionário público de Doutor Ulysses, sendo que dois vereadores da cidade residem no povoado.
Todo forasteiro, ao chegar no vilarejo, fica encantado não só com a beleza natural da localidade, emoldurada pela água cristalina do Rio Turvo, mas com o capricho do amontoado de casinhas, que mais parecem de brinquedo.
A primeira missão evangélica de Santo Antônio da Platina (cidade-pólo/Norte Pioneiro) desbravou a alma dos moradores há 55 anos, quando o primeiro aceitou Jesus, por meio do batismo.
Atualmente, a Congregação Cristã no Brasil tem o maior rebanho de fiéis entre os moradores do povoado e a Assembléia de Deus também tenta atrair ovelhas para o seu redil.
A profissão de fé evangélica faz com que alguns moradores se mantenham ainda mais isolados do mundo, não deixando lugar na sala para o aparelho de TV, considerado um inimigo da doutrina, apesar de o visitante perceber que, atrás do discurso religioso, várias antenas parabólicas nas casas apontam para o céu.
''Esse piazinho meu, sempre que pode dá uma escapulida à tarde para assistir televisão na casa de um vizinho'', aponta para um dos três filhos, o comerciante Jamir de Bonfim, 38 anos, que diz que desligou de sua vida para sempre a TV.
Membro da Congregação Cristã, ele e outros moradores não têm acesso fácil a jornais e revistas, tomando conhecimento do mundo por intermédio do rádio, um meio de comunicação de massa que ainda não conseguiu esclarecê-lo sobre assuntos e discussões comuns em grandes centros urbanos, como a lista dos candidatos à presidência da República. Jamir sabe apenas que um dos postulantes é o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Se dependesse da construção de templos religiosos, a porta para entrar no paraíso não seria tão estreita, como propõe a fé cristã, já que num raio de 45 quilômetros de distância entre Caraguatá e Cerro Azul (97 quilômetros ao norte de Curitiba), município do qual Doutor Ulysses foi desmembrado, em 1993, existem seis igrejas evangélicas.
A maioria das festas tradicionais e bailes, comuns em outras comunidades rurais, fica esperando do outro lado do rio, já que as únicas comemorações dos moradores de Caraguatá acontecem quando das águas do batismo nasce mais um cristão. Somente este ano, 107 pessoas fizeram esse mergulho na fé nova.
Na comunidade em que a cada ano muitos são batizados, as mãos que abençoam novos cristãos também são impostas sobre casais, que elevam a grande ocorrência de casamentos no povoado.
Muitos corações casadouros procuram a cara-metade entre os próprios parentes para não precisar buscar a alma gêmea noutra freguesia.
Durante o fim de semana anterior à produção da reportagem, dois casais disseram o ''sim'' e, numa demostração de que nem sempre candidatos ou candidatas a dividir o mesmo teto estão em barzinhos, boates e outros endereços, mais comuns em grandes centros para a paquera, neste ano em Caraguatá foram realizados 15 casamentos.
Bonfim faz parte dos que não saíram do povoado para encontrar uma companheira. Com a esposa, o comerciante assiste a vida passar exclusivamente no povoado, afirmando que fica até três anos sem viajar a Castro, localizado a 72 quilômetros de distância do lugarejo.
''O tempo para nós é contado através do trabalho. As horas custam a passar, quando a gente fica parado'', comenta Bonfim.
Com representantes na Câmara Municipal, Caraguatá não tem iluminação pública, rede de esgoto e a água é encanada de uma nascente. Os moradores pagam uma taxa anual de consumo de R$ 20,00. A maioria dos que residem no lugarejo é beneficiada pelo programa estadual ''Luz Fraterna''.
Sem televisão, iluminação pública nas ruas, praça ou outra área de lazer, moradores como Sebastião Rodrigues Rosa, 69 anos, que nasceu e criou os oito filhos no vilarejo e agora conta o número de netos e bisnetos, assistem da varanda de casa alguns indícios de progresso molhar os pés no rio Turvo, a cortina que todos os dias embeleza a janela de casa.
''Antes, todo mundo bebia água direto desse rio. Hoje são 130 famílias, usuárias de água encanada. Aqui, o dia começa cedo, por volta das 5h30. Às 18 horas já estou tomando chimarrão e me preparando para dormir'', ressalta Rosa, abrindo as portas e casa para receber os visitantes da cidade grande.


