Para uma cidade se tornar efetivamente sustentável, todos têm que fazer sua parte – poder público, empresários, moradores. Essa é a questão: recolher o lixo das casas e das empresas, e dar destinação correta a ele, é fundamental, mas o conceito de "Cidade Sustentável" não tem possibilidade de vingar se os próprios moradores não mudarem seu comportamento inadequado.
O rio começa na rua. Ou a rua é a nascente de um rio. A ideia pode parecer estranha, mas faz todo sentido quando nos damos conta de que o lixo que jogamos na rua vai acabar caindo em um corpo d’água, que pode ser um rio ou um lago. Ou seja, jogar um papel de bala na Avenida Higienópolis é a mesma coisa que jogá-lo diretamente no Lago Igapó – a menos que alguém dê fim à sujeira, antes da primeira chuva.
Isso porque, quando chove, a água pluvial, antes de ser lançada na rede coletora, vai levar com ela tudo que de sólido estiver pelas ruas – sejam folhas, lixo ou tocos de cigarro. Tudo isso vai cair na galeria pluvial, também conhecida como bueiro, e o que por lá estiver será lançado nos rios. Este é o sistema coletor da água da chuva (veja infográfico na página ao lado).
O esgoto sanitário, ao menos teoricamente, não se mistura com a água pluvial e tem um sistema próprio. No Brasil, foi adotado o sistema chamado de "separador absoluto", com duas redes coletoras independentes, como explica Fernando Fernandes, professor do departamento de Engenharia Civil da UEL e doutor em Saneamento Básico. "A água da chuva cai na galeria de águas pluviais, passa por uma tubulação e vai para o rio", ele descreve. "O esgoto cai em outra rede, de diâmetro menor, que foi projetada e construída só para receber esgoto sanitário."
O professor diz ainda que o esgoto vai para uma estação de tratamento antes de ser depositado nos rios. "A separação dos sistemas é essa, em teoria. Na prática, existem misturas", pondera Fernandes. Mistura essa que pode acontecer quando, por exemplo, uma pessoa resolve fazer uma reforma em casa e, por ignorância ou por comodidade, liga a tubulação de esgoto na de água pluvial ou vice versa.
Para o professor, já passou da hora da sociedade como um todo se conscientizar sobre as consequências de seus atos, adotando um comportamento sustentável e comprometido com o ambiente onde vive. Ele critica a cultura paternalista dos brasileiros. "Tudo, para nós, tem que ser resolvido pelo Estado, pelo chefe, pelo pai. As pessoas não tomam para si a sua responsabilidade, o que elas podem fazer."
Fernando Fernandes também critica o processo de urbanização de áreas sem a preocupação com o ciclo urbano da água, como acontece atualmente, em Londrina, na bacia da Gleba Palhano. Segundo ele, para que tenhamos um urbanismo sustentável, do ponto de vista do ciclo da água, é preciso manter uma faixa de solo permeável com vegetação. "Os planos diretores recomendam que essa faixa seja de 20%, o que é muito pouco, e impede que o excedente da água pluvial seja infiltrado", afirma.

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