Longe do mar, das rodovias do Anel de Integração e dos ramais ferroviários, São Jerônimo da Serra (84 km ao sul de Cornélio Procópio) pouco desfrutou dos ciclos econômicos que fizeram prosperar outras regiões e se transformou em ícone do subdesenvolvimento no interior do Estado.
O município surgiu a partir de uma expedição para catequização dos caingangues, em 1854 (a emancipação só veio em 1920), mudou algumas vezes de nome, foi pólo madeireiro, entrou no mapa dos cafezais, mas hoje é objeto de estudos acadêmicos por seus alarmantes indicadores sócio-econômicos, incluindo uma das menores rendas per capita do Estado, uma alta taxa de analfabetismo e o título de município paranaense com pior condição de sobrevivência para crianças até seis anos (os dados são de 1991; uma das bases do Comunidade Solidária, a cidade avançou significativamente nos últimos cinco anos nestes quesitos).
O Censo 2000 contabilizou 11.750 habitantes, quase a metade morando em seis povoados rurais. A realidade que saiu dos questionários deve constatar a baixa densidade agrícola e o desemprego urbano. A combinação não produz riqueza o suficiente para impedir o imobilismo social, como fica flagrante em histórias contadas por trabalhadores que, há gerações, lutam contra a pobreza e a ignorância.
Sem indústrias importantes, de comércio incipiente e agricultura –com raras propriedades como exceção– de subsistência, e ainda sem saber explorar o potencial turístico de um belo conjunto de cachoeiras, São Jerônimo superou a era do chumbo e da ganância, que vitimou principalmente os índios caingangues das duas reservas do município, mas não conseguiu se livrar da herança nefasta de uma ocupação feita à força e que contemplou com a exclusão os mais fracos.
A caingangue Maria Cândida de Souza, 73 anos, nascida e criada em uma reserva indígena que se transformou em uma espécie de periferia pobre da cidade, faz parte desta estatística. Hoje, vive na cidade, se sustenta com dois salários mínimos da aposentadoria dela e de seu marido, Jerônimo Ferreira dos Santos, de 74 anos. Na casa, ainda vivem dois filhos desempregados. ‘‘Não tá muito bom, mas dá pra viver’’, diz a velha caingangue, sem televisão, sem geladeira, em uma realidade que diluiu para sempre os costumes de uma cultura milenar.

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