Cidade duplicada
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terça-feira, 26 de maio de 2009
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
A capital da Turquia é Istambul, que já foi Constantinopla que, por sua vez, já foi Bizâncio. Reinos, consquistas e lutas transformaram a história do território. Em "As Cidades Invisíveis", não raro as terras descritas por Marco Polo, personagem de Calvino, são duplicadas, sobrepostas, refletidas. Os nomes e as características acabam por fazer com que as cidades duplicadas assumam novas "personalidades", sendo, ao mesmo tempo, uma e outra.
Locais divididos por nomes diferentes, com características distintas, não são exclusividade da literatura ou da história. Em Curitiba, o exemplo mais clássico é a dupla personalidade assumida pelo bairro Bigorrilho, que possui um outro lado -assimétrico- batizado de Champagnat. O exemplo, porém, não é único. Muitos recordam-se do bairro Capanema, que ganhou nova nomenclatura com a criação do Jardim Botânico, em 1991, passando a ser conhecido pelo nome do parque.
Mais recentemente, o antigo Campo Comprido começa a perder lugar e, de tempos para cá, passou a ser anunciado como Ecoville. O nome híbrido, com cara de condomínio fechado, é divulgado, principalmente, em anúncios de edifícios em construção na região. O "boom" imobiliário do local acabou por criar (exigir) que o local assumisse uma nova personalidade, a começar pelo nome. Oficialmente, quem comprar um apartamento no Ecoville vai continuar recebendo a correspondência no bom e velho Campo Comprido.
É o que acontece no Champagnat. Os moradores e comerciantes que vivem ou trabalham na Rua Padre Anchieta insistem em colocar o endereço do bairro como Champagnat. Os edifícios também têm nomes como "Champagnat Tower", "Champagnat Garden", "Champagnat Ville", "Champagnat isso ou aquilo". De acordo com Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), órgão da prefeitura responsável pelas ruas e bairros da Capital, não existe o bairro Champagnat. O Ippuc informou, por meio de sua assessoria, que essas novas sugestões de nome para os bairros, como o Campo Comprido ou Bigorrilho, têm outros motivos que não os estruturais. Os novos nomes acabam surgindo para suprir uma demanda comercial ou imobiliária.
Ainda assim, muitos comerciantes do Bigorrilho insistem em chamar o bairro de Champagnat. No cartão de Giovanni Rozza, que comercializa suplementos nutricionais, o endereço é Rua Padre Anchieta, 1932 - Champagnat. A loja tem piso metálico, moderno, prateleiras de vidro, computador ligado à internet. Ao lado, uma grande academia de dois patamares recebe os moradores da coluna de edifícios da Padre Anchieta. "Eu uso Champagnat. É um nome de origem francesa. Soa mais chique", justifica Rozza. Ele sabe que o nome do bairro é Bigorrilho, mas explica que utiliza a outra denominação por motivo comercial. "Comercialmente funciona melhor; tem mais receptividade", diz.
A explicação para a criação do novo nome, diz ele, está atrelada ao comércio. "Se você tem um produto de valor agregado, o nome faz toda a diferença. É o que acontece no Ecoville", opina Rozza. O empresário não é curitibano, mas conta que, quando mudou para a cidade, sempre ouviu que o bairro se chamava Champagnat. "Então resolvi adotar", diz.
Quatro ou cinco ruas para baixo, o Champagnat não existe. A mercearia da família Colussi fica no Bigorrilho. Ali não há sofisticação, não existem grandes edifícios, os preços dos produtos estão escritos a mão. A família de gaúchos é pioneira no bairro; chegou quando o local era um descampado deserto, longe do centro da Curitiba de 35 anos atrás.
Com dificuldades, o patriarca dos Colussi, Arlindo, comprou o terreno no Bigorrilho e ali se estabeleceu. Abriu a mercearia, de uma portinha, para a mulher. Quem conta a história é a filha do casal, Silvana Colussi, que hoje toma conta do negócio. "Minha mãe falava que na época que chegaram não existia nada; eram só chácaras. As casas eram longe umas das outras. Não tinha asfalto", lembra.
Para Silvana, a tentativa de mudança de nome na região vizinha está associada à classe social. "Querem modernizar o bairro e a modernização traz a mudança", diz ela. Silvana acredita que a sugestão do outro nome -mesmo considerando Champagnat mais atrativo que Bigorrilho- nunca vai assumir o que já existe. "Champagnat é bonito, atrativo, mas não há nada como a tradição", resume Silvana, atrás do balcão da mercearia na pacata rua. Na frente não passa ônibus, quem dirá o barulhento biarculado, como na Padre Anchieta; até carro não passa muito. É como se fosse outro bairro, não o chique Champagnat -este na verdade é que é o outro.


