Rubens Burigo Neto
Os casais Irani Carrilho Gomes de Oliveira e Ivan de Oliveira, Virgínia Rebelo e Marcelo Pereira dos Santos e o empresário japonês naturalizado brasileiro Kenji Fukui fazem parte do enorme caldeirão cultural que caracteriza Curitiba. Em épocas distintas, todos acabaram optando pela capital paranaense como uma nova opção de vida.
De uma maneira geral eles não poupam elogios à estrutura de tráfego e a segurança da Curitiba. Hoje, porém, só mantêm unânime a crítica sobre a frieza com que os curitibanos ‘‘da gema’’ tratam aqueles que estão se tornando seus conterrâneos. E também já começam a se preocupar com o aumento da violência e os problemas gerados pelo tráfego pesado de veículos nas ruas centrais de Curitiba.
‘‘Aqui as ruas são limpas e o povo se comporta como os Europeus’’, elogia Kenji Fukui, há quase dez anos dono de um restaurante vegetariano com típico tempero oriental no centro histórico de Curitiba. Naturalizado brasileiro desde 1979, Fukui veio casado de Osaka (região central do Japão) há 28 anos. Durante este período a família aumentou bastante – Fukui tem sete filhos, todos nascidos em Curitiba. ‘‘Fiz bem em aceitar o convite de meu cunhado. Ainda tenho irmãos morando no Japão, mas aqui é minha casa’’, afirma com o sotaque carregado.
Nascido no Rio de Janeiro há 34 anos, o designer gráfico Marcelo dos Santos Pereira veio para Curitiba em 1989, quando optou por cursar enegenharia na Universidade Federal do Paraná. Havia conhecido a cidade no ano anterior, quando a família veio morar em Paranaguá devido à transferência do pai, que servia na Marinha. Para ele, as mudanças de cidades foram constantes.
‘‘A primeira impressão que tivémos de Curitiba foi a característica de cidade do interior numa cidade grande, como o trânsito pouco movimentado, por exemplo, e também a falta de uma forte identidade cultural dos moradores. Ao contrário das outras cidades em que vivi’’, relembra.
Hoje Marcelo se diz ‘‘estressado’’ com o trânsito no centro da capital paranaense, ‘‘porque ainda existe um sistema provinciano de concentração do comércio e dos bancos.’’ ‘‘O bom é que ainda existe a preocupação com um planejamento urbano para preparar o crescimento de uma periferia mais organizada’’. Marcelo só lamenta não conseguir manter amizades com os curitibanos natos. ‘‘Quem nasce aqui é acomodado em todos os sentidos. Talvez por isso os curitibanos sejam tão frios. Dos meus amigos verdadeiros, 90% não são nascidos aqui.’’
‘‘Sempre enfrentei problemas com a relação social estritamente fechada dos curitibanos’’, confessa a mulher dele, Virgínia, que tem a mesma idade. Ela veio para Curitiba ainda bebê, aos seis meses, e sente saudades dos tempos em que brincava nas ruas do bairro da Barreirinha e saía sozinha para comprar pães no supermecado vizinho à casa dela.
Formada em Turismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e ex-moradora da Casa da Estudante, ela reclama do estado de degradação da região que compreende a Praça Santos Andrade, a Reitoria e o Passeio Público. ‘‘Admito que sou meio escrava de Curitiba pelo seu bonito aspecto visual. Mas infelizmente não se pode mais sair à noite – nem mesmo acompanhada–, pelas ruas do centro’’, lamenta. Virgínia assegura que permanece na cidade pelos compromissos assumidos, em comum acordo, com a profissão do marido e a educação de Rafael.
É a mesma situação enfrentada por Irani, 44, e Ivan, 53, que vieram para Curitiba em 1990. A mudança aconteceu quando Ivan aceitou a proposta de ganhar um salário três vezes superior aquele que ganhava como técnico em manutenção da indústria de plásticos. ‘‘É uma cidade ótima para criar os filhos. Mas poderia ser melhor ainda se algumas pessoas não fossem tão arrogantes’’, critica Irani. Para ela, a cidade ainda não apresenta boas opções para o mercado de trabalho e, por isso, admite que pela ‘‘felicidade dos filhos (dois rapazes e duas garotas)’’ deixaria Curitiba.
‘‘Nós pensamos em voltar para São Paulo, onde moramos entre 1974 e 1990, porque ainda é mais fácil se virar profissionalmente’’, justifica Ivan, que é natural da Paraíba. Acostumado com o temperamental clima da cidade, ele dá uma dica para quem quiser se aproximar dos ‘‘frios’’ curitibanos. ‘‘Nos dois primeiros anos aqui, não entendia porque o mau-humor e a frieza no relacionamento, com pessoas de qualquer classe ou ocupação. Mas aprendi que é a gente que tem que quebar o gelo para iniciar uma amizade’’, ensina.

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