Ciclo começou a se definir nos anos 60
Ciclo começou a se definir nos anos 60
Fatores como saturação de outros centros e criação de instrumentos desenharam novo perfil econômico do Paraná
Guilherme Pupo
Albari RosaEconomista Wilhelm Eduard Milward Meiners, da Secretaria de Planejamento do Paraná e professor da FAE: advento das montadoras criou impactos favoráveis Os resultados do atual processo de industrialização no Paraná e a concretização do novo perfil econômico do Estado só podem ser compreendidos com a avaliação dos ciclos de desenvolvimento nas últimas quatro décadas. Nos anos 60, o Governo Ney Braga já havia definido um plano de industrialização como política de desenvolvimento do Estado. A construção da malha viária no interior favoreceu a posição econômica de Curitiba como centro de decisões políticas, financeiras e comerciais.
Na mesma época (em 1962), foi instituído o principal mecanismo para financiar o desenvolvimento do Parná - o Fundo de Desenvolvimento Estadual (FDE). Sustentado pela Companhia de Desenvolvimento do Paraná (Codepar), que em 1968 foi transformada em Banco de Desenvolvimento do Paraná (Badep), o fundo destinou seus recursos à produção e à distribuição de energia elétrica, a investimentos estaduais e a empreendimentos nos setores industrial e agrícola.
Na década de 70, o Paraná foi favorecido pelo movimento de desconcentração na indústria brasileira - liderado por uma segunda onda de investimentos multinacionais no País e por inversões estatais. Com a saturação da Região Metropolitana de São Paulo, com aumento no preço de terrenos, dificuldade de obtenção de mão-de-obra, conurbação e poluição, e as vantagens localizacionais de Curitiba, como condições de infra-estrutura, equipamentos urbanos, segurança, transporte coletivo, entre outros, a atração de investimentos para a Capital paranaense foi estimulada, observa o economista Wilhelm Eduard Milward Meiners, da Secretaria de Planejamento do Paraná e professor da Faculdade de Administração e Economia (FAE) em Curitiba.
Nessa época, projetos de grande porte vindos de São Paulo ou de fora do País instalaram-se na Cidade Industrial de Curitiba e na Cidade Industrial de Araucária. Nomes como Volvo, New Holland, Hubner, Denso, Krone e Bosch - empresas embrionárias do complexo automotivo paranaense - desembarcaram na região. No anos 80, com a recessão econômica e as altas taxas de inflação, a atração de investimentos diminuiu - exceto pela consolidação dos parques cimenteiro, de refinaria de petróleo (em Araucária) e de cerâmica (principalmente em Campo Largo).
O novo ciclo de crescimento na economia paranaense começou no início dos anos 90, com a formação do Mercosul - ampliando a área de mercado para as indústrias presentes na região - a abertura econômica ao comércio internacional e a estabilidade da moeda (de 1994 em diante, com o real).
Com suas vantagens localizacionais, além de instrumentos fiscais e financeiros proporcionados pelo FDE e pelo Programa Paraná Mais Empregos (dilação de prazo de recolhimento do ICMS, por meio da Lei Anibal Khury, em 1992), o Estado conseguiu firmar uma série de protocolos de investimento com empresas automobilísticas, alcançando a posição de um dos mais promissores pólos automotivos do Mercosul. Ao mesmo tempo que Curitiba fechou um ciclo da indústria automobilística em 1977 com a instalação da Volvo, a cidade reabriu outro ciclo com a chegada da Renault, em 1995, avalia Wilhelm Meiners.
ImpactosA respeito dos impactos regionais trazidos pela industrialização no Estado, o economista da Secretaria de Planejamento prevê que as montadoras devem gerar cerca de R$ 800 milhões por ano em ICMS, quando estiverem em plena operação. Já o incremento da atividade econômica em setores que vão se beneficiar do pólo automotivo deve produzir uma receita adicional de impostos de US$ 1 bilhão. O imposto indireto gerado pela atividade das montadoras será, com certeza, superior ao ICMS gerado por elas próprias. É importante perceber que as atividades econômicas que se beneficiam indiretamente do complexo automotivo pagam tributos, gerando assim uma importante receita adicional de impostos, avalia. Ele cita como exemplos dessas atividades os setores de serviços às empresas e famílias, comércio, construção civil, transportes, telecomunicações, indústrias de bens de consumo.
Outros impactos relevantes, segundo Meiners, são os efeitos no clima favorável de negócios na região, seja pelos novos empreendimentos imobiliários (desde a construção de instalações empresariais até moradias de alto padrão), como pela ampliação da oferta de serviços urbanos, em investimentos como novos shopping centers (até agora equivalentes a US$ 350 milhões), centros de entretenimento (US$ 150 milhões) e hipermercados (US$ 90 milhões). Muitas vezes os empreendimentos não estão relacionados diretamente com a indústria automobilística, mas sem dúvida não aconteceriam sem a vinda das montadoras, observa.
Para Meiners, o principal desafio a ser enfrentado pelo governo com essa arrancada rumo à industrialização é a definição de um planejamento urbano e de políticas sociais. Na perspectiva de obtenção de emprego, milhares de pessoas poderão ser atraídas para a região metropolitana. Esse efeito é maior quando a economia do interior não é capaz de gerar os postos de trabalho requeridos pela população mais jovem. O desafio do governo é de promover o desenvolvimento considerando fatores como a elevação dos índices de criminalidade e violência, os efeitos da conurbação e de deterioração das condições do trânsito e o decréscimo da qualidade de vida, afirma o economista.





