Quem vê o sorriso largo da ''caloura'' Nathália Tsukmoto não imagina a maratona que ela enfrentou nos últimos dois anos até realizar o sonho de ingressar na faculdade de medicina.
Aos 19 anos, a londrinense que vive em Curitiba há uma década, está em contagem regressiva para o início das aulas e ainda comemora o primeiro lugar alcançado na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Como se não bastasse, a estudante foi a quinta colocada no vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde a relação candidato/vaga era de 29 para um no curso de medicina.
''O primeiro lugar foi uma surpresa total. No cursinho, a gente vê muita gente se esforçando e, pelo que soube, dos três mil alunos, 1.800 iam tentar medicina'', comenta. Filha mais velha de um bancário e de uma dona de casa, Nathália sempre estudou em escola pública e havia concorrido, em 2005 e 2006, aos vestibulares da Federal, da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
''Mas, só passava na primeira fase. Sabia que meus pais não teriam condições de pagar uma faculdade, mas depois de tentar duas vezes em universidades públicas resolvi arriscar uma particular, eles me apoiaram o tempo todo e disseram 'vamos ver no que dá'', explica ela, que por ter alcançado a melhor colocação, ganhou uma bolsa de estudos integral da PUCPR.
A frustração por não ter sido aprovada nos vestibulares anteriores levou Nathália a pensar em ''dar um tempo'' nos estudos. Mas, depois que decidiu vencer o desânimo, a jovem assumiu por completo a rotina de estudos indicada pelo cursinho que frequentava. Além de não faltar a nenhuma aula, ela, que sempre foi boa aluna, mas admite que se organizava pouco, estudava em casa por pelo menos cinco horas diárias.
''É preciso saber tirar proveito do tempo, priorizando aquelas matérias mais complicadas. O cursinho dita um ritmo, uma rotina de estudo e isso é muito bom'', ensina a jovem que, apesar do dia-a-dia corrido, não abria mão dos momentos de lazer, reservando os domingos para passeios e encontros com os amigos. Assistir filmes e ''navegar'' na internet eram outros passatempos importantes para vencer a tensão.
Equilíbrio é tudo
Manter uma agenda que associe aulas, muitas horas de estudo e momentos de diversão e relaxamento é o desafio dos candidatos ao vestibular. A empreitada fica ainda mais difícil para quem está distante de casa.
Primeira colocada da UFPR no curso de medicina, a catarinense Larissa de Oliveira, de 17 anos, deixou a cidade de Joinville por um ano, com a mãe, para estudar em Curitiba. ''Eu estudava como todo mundo, não esperava passar em primeiro. Foi uma alegria muito grande'', relembra.
Bem sucedida em seu primeiro vestibular, a estudante também ressalta a importância das horas de descanso para quem decide enfrentar a verdadeira batalha por uma das vagas nos concursos mais concorridos.
Larrissa fazia questão de dormir de sete a oito horas por noite e manteve as idas à academia duas vezes por semana ''para relaxar''. Para quem está pensando em começar ou recomeçar) a rotina puxada de estudos, ela dá uma dica: ''é preciso saber dosar o lazer e o estudo, é claro que a gente acaba diminuindo o número de saídas''.
Entretanto, o sacrifício parece valer a pena. ''A gente fica com aquela sensação de vitória, de dever cumprido'', compara Juliana Juski, 18 anos, primeira colocada no curso de Comunicação Social - Relações Públicas da Universidade Federal do Paraná. Ela também optou pela ''malhação'' para superar o cotidiano estressante.
Já Aline Ingberman, de 17 anos, que obteve a primeira colocação na UFPR no curso de Engenharia Ambiental e também na PUCPR, suspendeu a academia, mas não abria mão das saídas com os amigos nos finais de semana.
Enfrentando a pressão
Depois de enfrentarem o ''fantasma'' do vestibular, os calouros têm pela frente uma longa trajetória de, no mínimo, quatro anos de estudo intenso nas universidades. A situação pode ser ainda mais difícil para os primeiros colocados. É compreensível que queiram manter o mesmo padrão de notas durante os cursos que escolheram. ''Não estou me sentindo pressionada por ter chegado em primeiro, mas tenho responsabilidade comigo mesma. Quero continuar tirando boas notas'', afirma Nathália Tsukmoto.
Aline Ingberman tem opinião semelhante. ''A meta é manter o mesmo nível de notas'', afirma. Já a futura Relações Públicas Juliane Juski mostra-se resignada: ''Sei que cobrança terá''.
A ''caloura'' Larissa de Oliveira, que está de malas prontas para Curitiba, tenta manter a tranquilidade. ''Sei que (minha vida) vai mudar bastante, mas a expectativa é a melhor possível. Ninguém consegue ser primeiro em tudo a vida inteira. Vou fazer o que for possível'', conclui.
De acordo com o professor João Henrique Faryniuk, diretor da faculdade de Ciências Biológicas da Universidade Tuiutu do Paraná (UTP), os estudantes que alcançam as primeiras colocações nos vestibulares chegam ao terceiro grau com disposição para continuar chegando na frente. ''Mas, eles já têm um perfil mais maduro, se adaptam normalmente, ajudam os colegas que têm dificuldade com as matérias e, geralmente, passam a ser os monitores das turmas'', comenta.

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