Chefes de bocas se apóiam em crianças
A venda ocorre a qualquer hora, em qualquer esquina. Mudar de boca (local de venda) é bom, não atrai a polícia. Trocar de clientes também é bom. Não se sabe se eles vão entregá-lo. Tudo é um risco muito lucrativo mas não que pode durar toda uma vida. É só para juntar 'algum'.
As linhas acima esboçam o raciocínio de um típico chefe de tráfico em Londrina. Eles não são sofisticados como aqueles apresentados pelo cinema norte-americano. Não esbanjam luxo, como imaginam os leigos. O lucro? Na maior parte das vezes é totalmente consumido em drogas, principalmente o crack.
Esses são os chefes de tráfico nos bairros. São todos condicionados a uma linha evolutiva que se repete incessantemente drogas, armas, tráfico. Esses meninos de Londrina, acostumados à primeira droga aos 8, à primeira arma aos 13, ao primeiro assassinato aos 15 anos, se entregam a esse ofício com dois intentos: dinheiro e drogas. O que resta mesmo é só o segundo item: ''Chegamos a consumir, numa roda, R$ 8 mil de crack por noite'', calcula um ex-traficante.
A rede do tráfico em Londrina se apóia em dois pilares. O crack, que obriga os viciados a fazer qualquer coisa pela droga. E o Estatuto da Criança e do Adolescente, que permite que muitos meninos fiquem presos apenas por 45 dias. Seguindo esse raciocínio, os chefes do tráfico perceberam que somente uma faixa etária atende a todas essas exigências, a criança.
Em um só bairro, o tráfico rende R$ 500 mil por mês, divididos entre aqueles que trazem, os que pesam, os que distribuem, os soldados (os meninos armados), e os que vendem. Geralmente, o primeiro passo para integrar essa rede é consumir a droga. O crack entra nesse ponto ele permite a alucinação mais intensa e é a mais cara. Uma bala de crack, que contém menos de um grama, não sai por menos que R$ 5,00 no Nossa Senhora da Paz ou no João Turquino. Uma pedra de 10 gramas é comprada em Foz do Iguaçu por R$ 120,00 e vendida em Londrina por R$ 170,00. Para a traficante ouvida pela reportagem, é mais lucrativo vender o PC um pacote com 16 balas que sai por R$ 170,00.
Também se vende cinco gramas de crack a R$ 75,00. E não são raras as vezes em que os clientes trocam qualquer objeto por um pacote: ''Vendia muito pra playboy. Quem comprava PC direto era um filho de político (hoje ele é político também). Maior nóia. Já fiz até fiado pra ele''.
Os chefes das bocas organizam um exército com seis, sete garotos, lhes fornecem armas, status no bairro e crack gratuito. Firmam acordos com policiais. E gastam quase tudo em crack. Pronto, está instalada mais uma rede de tráfico na periferia de Londrina.





