Céus e infernos
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quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Omar Godoy<br>Equipe da Folha 
Mais de 50 pessoas se reuniram, no último domingo, na sede do Instituto Ayahuasca, no bairro do São Francisco, em Curitiba. Gente, basicamente, de classe média e formação universitária, mas de todas as idades. Já passava das 14 horas quando Fernando Cracco, responsável pelo centro, iniciou uma preleção.
Descalços e sentados em cadeiras de plástico, os participantes ouvem compenetrados suas orientações. Praticamente um terço dos presentes estava ali pela primeira vez, trazidos por amigos, parentes ou parceiros. Como o administrador de empresas Tony Donaccorso, 43. Sua namorada, Abigail, bebeu o chá há pouco tempo e o convenceu a experimentar também. "Sou ateu, mas hoje acordei querendo fazer uma coisa diferente", diz Tony.
Mais escolada, a estudante de Educação Física Lina Cristo, 29, ajuda na organização do encontro. Cadastra os visitantes e recolhe R$ 10 de cada um - valor que custeia a bebida. Ela conta que começou a visitar o instituto no ano passado. "Já vinha buscando um lado espiritual e até cheguei a frequentar um centro espírita, mas não gostei".
Há quatros meses, Lina perdeu a mãe. Hoje, acredita que a aproximação com a ayahuasca serviu como uma espécie de "preparação" para o momento doloroso. "O sofrimento é o mesmo. A diferença é que eu compreendo melhor meus sentimentos", reflete.
Gerson Dalcol foi professor de Lina na faculdade. Especialista em Fisiologia, era "totalmente ateu" até que, por insistência da aluna, conheceu o instituto, em junho. "Naquele mesmo dia, matei minha descrença", afirma. Usando uma camiseta com motivos hindus, ele também exibe uma aliança de noivado. "Tinha uma espécie de bloqueio nos meus relacionamentos. Meus namoros não duravam mais de quatro meses", confessa, sem esconder a felicidade pela mudança.
Durante a rápida palestra, Cracco explica os detalhes do ritual e descreve os benefícios trazidos pelo chá. Entre eles a possibilidade de curar dependentes químicos e viciados em geral. "A ayahuasca é uma professora. Ela vem para ensinar e libertar a pessoa de tudo o que a escraviza" diz. E enfatiza: "Vocês vão ter um encontro com vocês mesmos, com seus céus e infernos".
Na seqüência, todos descem para o subsolo, equipado com colchonetes, cobertores e sacos plásticos (é comum vomitar ou ter diarréia durante o processo). Embalados por mantras e CDs com temas new age, os participantes enfim tomam o chá, em copinhos de café. Seguirão deitados até às 21 horas, sob a supervisão de Cracco e seus assistentes. Antes, todas as portas do instituto são trancadas - e a reportagem é obrigada a se retirar.
Na segunda-feira, pela manhã, Tony relata sua jornada. Por telefone, revela que teve a melhor experiência de sua vida. "Foi como ver um filme muito claro sobre o meu inconsciente. Percebi pontos positivos e negativos e entendi porque tenho determinados problemas".
Alguns momentos, ele admite, foram de tristeza e angústia, principalmente quando questões familiares vieram à tona. Mesmo assim, o administrador pretende voltar ao centro. "Isso não tem nada a ver com religião. Tem a ver com você mesmo, com uma descoberta pessoal. Com o ayahuasca, ninguém precisa de psicólogo".
A julgar pelos relatos, essa interiorização, somada à independência de dogmas e sacerdotes, é o que tem atraído cada vez mais interessados aos grupos ayahuasqueiros.


