Centenárias e irresistíveis
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de setembro de 2007
Luiza Xavier<br> Equipe da Folha 
Elas já foram uma verdadeira paixão nacional, dividindo a atenção da criançada com outras atividades que hoje parecem ingênuas demais. Surgidas há mais de cem anos - apareceram pela primeira vez em 1867, na França -, as figurinhas, assim como jogos de botão, bolinhas de gude, pipas e carrinhos de rolimã, experimentaram momentos de glória durante décadas, especialmente na primeira metade do século 20.
Nos últimos tempos, porém, a mania de colecionar os coloridos quadradinhos de papel foi sendo substituída pela ''parafernália eletrônica'' e suas diversas opções: veículos movidos a partir de controle remoto, bonecas falantes, games cada vez mais sofisticados, realistas e barulhentos, além, é claro, da sedutora internet, com seus sites de relacionamento e programas de bate-papo em tempo real.
Mas, assim como o surgimento da televisão não acabou com o rádio, o DVD não impede as idas ao cinema e os jornais impressos convivem com o noticiário online, as figurinhas nunca deixaram de ter seu espaço no dia-a-dia da garotada. Depois de passar por várias adaptações e inovações - papel auto-adesivo, processos de impressão mais sofisticados, detalhes metalizados, cheiro, transparência e cortes especiais - os cromos estão sendo redescobertos e agora servem de base até para atividades escolares.
''Quando estão trocando as figurinhas, as crianças praticam valores importantes, como tolerância e honestidade. A gente observa que eles são muito honestos ao negociar e o grupo ajuda a solucionar os conflitos que surgem durante a brincadeira'', avalia Soraya Sunaga, diretora do Colégio Expoente, no bairro Água Verde. Recentemente, a escola realizou uma exposição de álbuns antigos e um troca-troca de figurinhas reunindo pais, alunos e colecionadores em geral. O evento faz parte da iniciativa de ''resgatar brincadeiras e hábitos mais saudáveis'', segundo a pedagoga.
''Mais legal é trocar ou jogar bafo''
Reunir-se com os amigos para brincar com as figurinhas parece ser mais interessante para as crianças do que completar o álbum. ''O mais legal é mesmo ficar trocando ou jogando bafo, antes e depois das aulas, e também na hora do recreio'', conta Milena Hay Nunes, de 11 anos. Ela, que já completou um álbum, gasta cerca de dez reais por semana - os preços dos envelopes variam de R$ 0,60 a R$ 1,00 - para colecionar três dos títulos que estão em alta no mercado: Harry Potter, Ratattouille e Carros.
As irmãs Amanda e Aline Sphair concordam. Depois de ganharem os álbuns Harry Potter e Carros passam boa parte do tempo livre trocando e colando figurinhas. ''A nossa mãe não gosta que a gente gaste muito, então tentamos trocar bastante as repetidas com os amigos para completar os álbuns'', conta Aline. Para Amanda, colecionar é um ótimo passatempo. ''A gente se distrai'', diz ela, que junto com a irmã costuma participar dos eventos de troca de figurinhas. Além da distração, o hábito de colecionar pode ser um meio de fazer amizades. ''Uma vez estava no shopping e vi um menino com um álbum igual ao meu. Conversei com ele e consegui trocar as figurinhas que precisava'', conta João Vítor Machado, de 11 anos, que coleciona álbuns sobre futebol.
Pegando carona no sucesso dos filmes, as figurinhas dos personagens Shrek e Pokemon também não ficam por muito tempo nas prateleiras das bancas, assim como os imbatíveis cromos que trazem impressos fotos de jogadores de futebol. ''Em média, vendemos cinco mil envelopes por mês de cada uma dessas coleções. Ano passado, por causa da Copa do Mundo, os álbuns de futebol tiveram mais saída'', comenta Antonio Jean, proprietário da Banca do Toni, que há seis anos promove, todo sábado, uma troca de figurinhas. ''Quando começamos, vinham cerca de 50 pessoas, agora chegam a vir três mil, inclusive adultos que voltaram a colecionar''. acrescenta.
Outro indicador de que o setor vive novamente um bom momento é a produção das gráficas que trabalham para as principais editoras de álbuns e cromos. Em 2006, duas delas - a Kromo Editora e a Gráfica Rosset - produziram juntas 40 milhões de envelopes. O sucesso acabou gerando um problema até então desconhecido para este segmento: a pirataria. ''Algumas gráficas de 'fundo de quintal' imprimem sem licença e vendem as figurinhas a preço muito baixo, em torno de R$ 0,20. Mas, eu sempre digo para a 'piazada' evitar isso. Não podemos estimular esse tipo de coisa'', comenta Antonio Jean.
E o que será que os colecionadores mirins fazem quando conseguem completar um álbum? Quem tem a resposta na ponta da língua é João Eduardo Guimarães, de 12 anos: ''Eu guardo todos. Cada um tem uma história. Este aqui, por exemplo, eu só comecei a colecionar porque encontrei na rua, jogado no chão. Além disso, quando quero informações sobre jogadores de futebol ou sobre o modelo de algum carro, encntro tudo isso nos álbuns''. Uma prova de que figurinha também pode ser cultura.
Serviço
- Troca-troca de figurinhas na Banca do Toni
- Todo sábado a partir das 10 horas
- Av. Iguaçu, 2.225 - Água Verde
- Telefone: (41) 3077-3215


