''Se você fala que mora na Caximba, ninguém sabe onde é. Se fala que é onde fica o aterro sanitário, todo mundo sabe''. Assim a dona de casa Zenilda da Silva, 54 anos, define a percepção que a maior parte da população de Curitiba tem do bairro, localizado na Região Sul: é impossível dissociar a Caximba do aterro, instalado em 1989 e que recebe o lixo da capital e de 15 municípios vizinhos.
Zenilda mora no bairro desde que nasceu. A partir da instalação do aterro, ela teve que se acostumar com o mau cheiro. ''Vocês vieram num dia bom. Se tivesse um vento para cá, vocês iam sentir o fedor'', disse Zenilda à reportagem da FOLHA. ''O aterro trouxe problemas. Algumas pessoas sofrem de rinite. Nas árvores, quando crescem as frutas, elas ficam com uma espécie de ferrugem e não vão adiante''. Os moradores da comunidade acreditam que não receberam uma ''contrapartida'' adequada após a instalação do aterro.
''Pelo que o bairro merecia, não tivemos nada em troca. Temos só a creche e o posto de saúde. A escola estadual continua parada. Há uma escola municipal, mas só vai até a 4 série. Muitos jovens estão tendo que estudar numa escola longe daqui'', reclama Zenilda. O marido dela, o autônomo Euclides da Silva, 61, faz outra queixa: ''Prometeram asfalto, mas fizeram uma mantinha de nada em algumas ruas, e só''.
A aposentada Maria da Glória Ansai Raksa, 88, concorda que pouca coisa melhorou na comunidade após a instalação do aterro. ''Puseram esse asfalto, mas é uma porcaria'', critica.
Os moradores relatam que a Caximba tem atividade econômica centrada em produção rural, olarias, madeireiras e comércio. A comunidade vive a expectativa da desativação do aterro, que estaria perto do esgotamento. Uns comemoram, outros acreditam que o bairro vai ser esquecido de vez pelo poder público. ''Se hoje, que tem o aterro, não fazem nada pelo bairro, imagina quando não tiver'', afirma Euclides.
A Secretaria Municipal do Meio Ambiente informou que o aterro da Caximba deve ser desativado até o final do ano. Em março, foi lançado o edital para um novo sistema de tratamento do lixo de Curitiba e região. Entretanto, empresários obtiveram uma liminar que paralisou o processo, com a alegação de que o edital teria problemas. A secretaria informou que a região da Caximba será monitorada após a desativação do aterro.
O Centro de Apoio Operacional das Promotorias do Meio Ambiente enviou na última terça-feira à Prefeitura de Curitiba uma recomendação administrativa para que seja suspenso o recebimento no aterro de resíduos orgânicos de grandes geradores de lixo, como supermercados, shopping centers e fábricas, em até 15 dias a partir da notificação da administração municipal. O Ministério Público sustenta que a iniciativa destina-se sobretudo a obrigar empresas e prefeituras a adotarem ações efetivas de tratamento do resíduo orgânico, com a prática da compostagem (transformação do lixo em adubo).
A Secretaria de Estado da Educação (Seed) informou que as obras na Escola Estadual Maria Gai Grendel foram interrompidas no ano passado porque a empresa responsável abandonou os trabalhos. De acordo com a Seed, um contrato com outra empresa foi assinado na última quarta-feira e as obras devem ser retomadas na próxima semana.

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