A violência se transforma de acordo com o cenário onde habita. Nas grandes cidades, os marginais já descobriram que um dos pontos mais vulneráveis do esquema urbano são os cruzamentos com semáforos, onde os motoristas são obrigados a parar o carro, virando presa fácil para assaltantes.
Pensando nisso, a vereadora curitibana Julieta Reis (PSB) apresentou, em junho deste ano, juntamente com o ex-vereador (hoje deputado) Fábio Camargo (PTB), um projeto de Lei que autoriza a Prefeitura de Curitiba a deixar em alerta - isto é, com a luz amarela piscando - os semáforos em alguns pontos da cidade entre a meia-noite e as seis da manhã.
A Lei nº 12.343 foi sancionada pelo prefeito Beto Richa (PSDB) em julho deste ano e já foi publicada. Como tem caráter autorizatório, ela autoriza o poder executivo a aplicar a medida, mas não a torna obrigatória. Cabe à Diretoria de Trânsito de Curitiba (Diretran) escolher quais os pontos onde essa mudança é viável.
Segundo a diretora de trânsito da Companhia de Urbanização de Curitiba S/A (URBS), Rosângela Battistella, nesse momento estão sendo estudados quais os cruzamentos onde é possível aplicar a medida. ''Cada caso é um caso, temos que avaliar se existe visibilidade nos dois sentidos, senão pode comprometer a segurança do trânsito'', explica.
De acordo com o Código Brasileiro de Trânsito, quando um semáforo está em alerta, a preferência é de quem está à direita. No entanto, muitos acreditam que confiar no bom senso dos motoristas não é muito aconselhável. ''O pessoal já tá passando no vermelho, imagine se tiver no amarelo'', pondera o motorista particular Jorge Araújo, com 30 anos de experiência ao volante. Apesar de conhecer várias pessoas que já foram assaltadas em cruzamentos, ele acredita que a medida irá trazer problemas. ''Só vai ser bom para os 'pinguços' que passam direto'', critica. Pensamento semelhante tem o taxista Celso Mesomo, com 12 anos de praça. Ele acha que a medida poderá causar acidentes, pois muitos condutores não têm responsabilidade, principalmente à noite.
A vereadora autora da proposta alega que ''o amarelo não é o fim do verde, e sim o começo do vermelho''. Para ela, motoristas inconsequentes causam acidentes de qualqer maneira, com ou sem sinal em alerta. ''Quem é consciente não vai se acidentar'', argumenta.
Na verdade, a prática de colocar semáforos em alerta durante a madrugada já existia antes do projeto de Lei ser criado. Segundo Battistella, essa prática ocorre em alguns pontos isolados, onde não há prejuízo para a rede de tráfego. ''O semáforo é sincronizado, para desativá-lo, é preciso mexer na programação de toda avenida'', explica. Em outros locais a implementação dessa Lei é impossível. ''Na Avenida das Torres, por exemplo, na esquina com a Avenida Guabirutuba sempre ficam umas viaturas (de polícia) porque são constantes os assaltos, mas ali não seria possível o sinaleiro piscante porque a visibilidade é ruim e a velocidade dos carros é muito alta'', diz a diretora.
Apesar de algumas divergências sobre a eficácia da medida, motoristas, parlamentares e técnicos concordam em uma coisa: seu efeito é somente paliativo. ''O problema maior é a falta de segurança pública, eu mesma quando saio à noite fico com medo de parar no sinal'', diz a vereadora.
No entanto, o Coronel Costa, do Batalhão de Trânsito da Polícia Militar (BPTran), afirma que esse tipo de ocorrência não é tão frequente em Curitiba. ''A maioria das pessoas segue algumas recomendações para evitar assaltos no cruzamento e consegue voltar tranquila para casa''.

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