Logo que chegou a Curitiba, em 1994, Sebastião Isidro dos Santos, conhecido como ‘‘Painho’’, apaixonou-se pela cidade. Este amor incondicional pela terra em que deseja um dia descansar transformou-se em versos e os versos transformaram-se em um livro, que foi lançado pela Fundação de Ação Social (FAS), da prefeitura, em setembro deste ano.
Seria uma história como muitas outras se não fosse por um detalhe, Painho é catador de papel. Foi empurrando seu carrinho pelas ruas de Curitiba que acabou maravilhado pela cidade. Como não podia comprar papel, aproveitava folhas usadas que encontrava para registrar seus versos em uma velha máquina de escrever, também encontrada no lixo.
Sem oportunidade de estudo na cidade de Chão Preto (antiga Viçosa, em Alagoas) onde nasceu, Sebastião trabalhou de graça por dois meses na roça em troca de conhecimento. Ele diz que em 60 dias seu empregador lhe ensinou a ler, escrever e fazer contas. Na época tinha oito anos, mas já sabia que sua trajetória passaria pela palavra escrita. Hoje, aos 63 anos, pai de sete filhos e avô de 14 netos, realizou o que chama de o maior sonho da sua vida ao publicar um livro.
Ele mora com a esposa, quatro filhos e quatro netos, em uma casa no Alto Boqueirão. Foi em um quartinho sem janelas, entre violões que ele reforma e uma pilha de livros e revistas que reuniu ao longo de sua trajetória, que Painho conversou com a Folha de Londrina.
Além de um leitor ávido, Sebastião é um escritor incansável, ‘‘posso ficar parado 60 dias escrevendo em verso sem repetir nenhum’’, afirma. Além dos versos, ele faz letras de músicas e improvisa repentes como bom sertanejo que é. Sua poesia passeia por toda cidade, homenageando tanto cartões postais quanto endereços comuns. Tem versos para o Teatro Guaíra, para a Praça do Japão, Zoológico, postos de gasolina, hospitais e até para o número 156 do ‘‘disque-informações’’.
Com a velha máquina de escrever estragada, Sebastião utiliza agora uma máquina elétrica que ganhou da FAS, mas o que gostaria mesmo é ganhar um computador. Para juntar dinheiro, ele recebeu 80 exemplares de seu livro, que vende por R$ 10 cada.
O talento de Sebastião foi descoberto na FAS Boqueirão, quando ele procurou a unidade para um tratamento de saúde. A história de um homem que diante de todas as adversidades encontrou espaço para escrever a vida em versos encantou a coordenadora da regional, Roseli Bittencourt, que decidiu passar as poesias que ele escrevia em folhas velhas para um formato mais adequado. O livro, Curitiba em Versos, foi lançado durante as comemorações da Semana do Idoso, quando Sebastião foi homenageado.

Família
‘‘Minha família é ótima, minha família é meu orgulho’’.

Sonho
‘‘Meu sonho é que o mundo seja mais feliz, por isso estou escrevendo sempre alguma obra pra ver se ela chega no ouvido de alguém’’.

Poesia
‘‘A poesia é a alma do sertanejo’’.

Sucata
‘‘Tudo que é bom, não importa que seja sucata ou não. Se tem valor comercial ou não, mas o valor da alma.’’

Alegria
‘‘Alegria sempre, porque a tristeza tem lugar, mas a alegria é uma nuvem que chega em cima da tristeza e faz ela brilhar.’’

Livro
‘‘Todos eles, que fale de qualquer coisa, livro é livro. Eu sempre disse que o livro é a luz da vida.’’

Curitiba
‘‘Eu acho que é o sonho de todo brasileiro morar aqui.’’

Brasil
‘‘Eu me orgulho de ser brasileiro e acho que todos devemos nos orgulhar.’’

Futuro
‘‘Eu gostaria que todas as nossas crianças vivessem melhor para ser melhor amanhã.’’

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