Casos
Damas do society
e damas da noite
Walmor Maccarini
Naqueles tempos, em Londrina, a zona do meretrício fervilhava. Não era própriamente aquele lugar com jeito de zona, antes um iluminado boulevard, onde todos iam, sobretudo os mais abastados e os mais ilustres. Fim de noite, era preciso passar lá, ou não se saberia das coisas, dos negócios, das novidades. Os jornalistas da Folha, assim como todos os figurões da cidade, eram amigos das mulheres mais ‘‘top’’ de lá, e elas eram tantas. Na madrugada, quando as casas fechavam, muitas delas vinham nos visitar na Redação, antes de irem para o jantar no Restaurante Líder.
Havia em Londrina tambem um denominado Clube dos Cinquenta, que reunia os 50 melhores da ‘‘fina flor’’ da sociedade. Os mais refinados do jornal também o frequentavam, a convite - os mesmos que também iam à zona. As mulheres, de ambas as alas, eram todas muito jovens e bonitas.
Pois aconteceu que às vésperas de um fim de ano, no começo da noite, a Redação do jornal recebeu a visita das mulheres do Clube dos Cinquenta, que vieram cumprimentar a ‘‘laboriosa classe dos profissionais de imprensa’’. Trouxeram algumas champanhas, e todos beberam.
E em meio a esse alegre encontro, eis que chegam tambem duas dezenas de outras lindas mulheres, aquelas do boulevard... Estas não perguntaram quem eram aquelas, a aquelas não perguntaram quem eram estas. Certamente as da sociedade imaginando que fossem outras garotas tambem do society, e estas quem sabe imaginando que as do society também eram do boulevard...
Tertuliano moveu
a velha máquina
Nestes 50 anos, a Folha foi impressa em várias máquinas, diferentes, até que um certo dia entrou na era das impressoras rotativas. Foi uma revolução, mas ainda não era a off set de hoje. Pois bem, essa rotativa, muito velha, foi comprada por João Milanez, no Rio. Quem cuidava da limpeza dela - e por isso tinha aprendido a acioná-la - era um tal de Tertuliano, menino baixinho e alegre. Nordestino. Tertuliano amava aquela máquina. Conversava com ela.
Chegara afinal a moderna off set, e a velha máquina ficou ali, quieta, esquecida, coberta de teias. Tertuliano também desapareceu. Certa noite ouviu-se o ruído daquelas engrenagens rodando. Quem ouviu, jura que ouviu. Chegou-se a imaginar alguma ratazana movera a máquina. Mas ninguém tira da cabeça, até hoje, que era o Tertuliano. Dele não mais se soube, teria talvez morrido e viera naquela noite ouvir o lamento da velha companheira.

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