Casas sem pregos são marca de Assaí
A influência que a cultura japonesa deixou na arquitetura brasileira é uma das características encontradas nas construções de madeira em Assaí, todas feitas pelo sistema de sambladuras - encaixes sucessivos de madeiras sem utilização de pregos. A constatação é do arquiteto e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Humberto Yamaki, que estuda estas características predominantes na arquitetura das casas dos colonizadores japoneses das duas cidades paranaenses.
A técnica, de origem milenar no Japão, consiste em erguer a estrutura de uma casa somente com encaixes na madeira, exatamente como os antigos arquitetos e construtores do Império faziam na construção das moradias e dos templos, que estão em pé até hoje, firmes e resistindo aos séculos.
Em 1994, Yamaki iniciou um inventário de 50 residências montadas nas décadas de 40 e 50 e que ainda mantêm as características originais. O levantamento dará base para uma cartilha, segundo Yamaki, contendo plantas e detalhes técnicos das residências. O objetivo é fazer com que a população crie, a partir desse material, uma identidade cultural própria nas próximas construções, explica o arquiteto. Essa etapa do projeto, no entanto, está paralisada temporariamente.
Mas os arquitetos e estagiários do curso de Arquitetura e Urbanismo da UEL, orientados por Yamaki, continuam trabalhando no detalhamento do levantamento técnico das sambladuras das casas de Assaí. Este estudo só vem confirmar a lenda das casas sem pregos que existiam em Assaí. Descobrimos que realmente há muitas residências utilizando esta técnica, mas que estão sumindo rapidamente, dando lugar às casas de alvenaria, comenta. Numa única casa em Assaí, do final da década de 30, foram encontrados mais de 30 sambladuras diferentes.
Mas hoje não há mais mestres carpinteiros que trabalhem com este tipo de construção. E infelizmente também há pouca literatura a respeito, ressalta Yamaki. O arquiteto está desmistificando este tipo de construção, muito comum na colonização de Assaí, mas que poucas pessoas percebiam.
O que chama a atenção dos arquitetos é o fato das sambladuras ou tsuguitê serem produzidas sob medida, com uso de peças de grandes dimensões, toras curvas e tesouras sem escoras, todas unidas por encaixes. Esta é uma tradição milenar, que sofreu adaptações com o tempo. Fica difícil definir a qual linha pertencem os mestres carpinteiros que vieram para o Brasil, afirma.
Humberto Yamaki lamenta que os primeiros mestres japoneses não tenham feito escola no Brasil. Os que vieram primeiro, a convite das companhias colonizadoras, já morreram. Por este motivo, ele acredita que o levantamento que ele e seus alunos estão fazendo se tornará um documento importante para registar um pouco desta tradição.
MestresMas este não é o único trabalho. Em 1994, o grupo de Yamaki iniciou o resgate da história de Assaí através da arquitetura do período da colonização. As casas exóticas foram deixadas de lado deste estudo, fixando-se somente nos detalhes das primeiras construções. É nestas casas que podemos definir a identidade cultural da cidade. Apesar das casas dos colonizadores japoneses não serem no estilo japonês, elas carregam diversos traços que as identificam com a cultura colonizadora, explica.
Entre os detalhes que fazem a diferença, Yamaki explica que estão os telhados de ponta, as grandes varandas com peitoris, os lambrequis e as janelas. Os lambrequis, por exemplo, são utilizados no Japão como elementos de interior da casa, como apoio à ventilação dos cômodos. Em Assaí eles são usados externamente, demonstrando que ali vivem famílias de japoneses, comenta.
O estudo não ficou somente nas moradias, mas também no projeto de ocupação desenhado pela empresa colonizadora Bratac e na sua adaptação em relação ao relevo do município. O plano urbanístico inicial da cidade tinha na avenida principal a escola como ponto de referência, com a igreja ficando numa avenida secundária, ao contrário das outras cidades da região. Com o fim da Segunda Guerra, a igreja voltou para o lugar de destaque no referencial.
Fazem parte dos estudos a disposição dos muros das residências, os jardins e as calçadas de acesso até as casas. Existe uma certa hierarquia entre o espaço público e o espaço particular. Geralmente as casas possuem um mesmo estilo nos muros. Nos jardins verificamos certos tipos de plantas comuns a um quintal e outro, aponta.
Yamaki diz que é possível olhar uma casa por fora e apontar quem a construiu, bastando observar os lambrequis. O desenho é a sua marca registrada. Já a divisão interna da planta da casa era determinada pelo proprietário, assegura.
O arquiteto ressalta ainda que as plantas das casas também eram determinadas pela própria Bratac, que apresentava o projeto de colonização. Até um concurso para incentivar os carpinteiros a construírem casas com características japonesas, dando vazão à criatividade dos profissionais da época foi realizado. Por todos estes motivos, Yamaki acredita que não existe arquitetura japonesa em Assaí, mas uma arquitetura assaiense.Arquivo FolhaPreservaçãoYamaki, em seu escritório: Arquitetura assaienseAlexandre Sanches





