CASAMENTO - Unidos pelo sagrado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de abril de 2009
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Na memória coletiva, a imagem de casamento é a clássica da noiva vestida de branco trocando alianças com o amado e jurando amor eterno diante do padre numa belíssima igreja. Tendo essa cerimônia como referência, lançar um olhar sobre o casamento de outras religiões, como o judaico, significa naturalmente buscar semelhanças ou diferenças em cada ritual. O matrimônio no Judaísmo, de origem anterior ao Cristianismo, também traz a noiva vestida de branco pelo mesmo motivo: porque indica pureza.
Só que ao contrário da cerimônia católica, na tradição judaica a noiva não entra com o véu cobrindo o rosto, mas com ele para trás. O rosto da noiva só será coberto pelo futuro marido depois que ele conferir que é ela mesmo ali presente (veja mais no box). A entrega da aliança do noivo para a noiva constitui o momento central do casamento. O curioso é que o anel é colocado no dedo indicador da mão mais forte da noiva, e não no dedo anelar da mão direita, como de costume (e que parece ser uma herança greco-romana).
Mais distante da ritualística do casório cristão, a umbanda apresenta uma cerimônia emocionante e vibrante. Há quase quatro anos, o vendedor Alexandro Godoy, 37, se casou com a médica Adrianne Brunini, 43. Ambos seguidores da religião, cumpriram procedimentos de preparação para o casamento. ''Três dias antes, ficamos de preceito, há coisas que não podemos fazer, comer ou beber para estarmos mais preservados de corpo, mente e espírito. Fizemos um dia de oferenda a todos os orixás, e providenciamos roupas específicas nas cores dos orixás individuais'', relata Alexandro.
Na noite anterior ao casamento, o casal não se encontrou para se manter energeticamente e ficar mais puro. ''O ritual do casamento é antecedido, por alguns dias, com a fatídica pergunta se realmente queríamos e estávamos certos disto, feita pelo meu Pai de Santo e a Mãe de Santo dela. Aliás, não podemos ser filhos do mesmo Pai ou Mãe, pois seria considerado incesto'', explica ele, umbandista desde os 8 anos de idade e, há um ano, foi coroado oficialmente um Pai de Santo.
''Minha esposa já participava da umbanda. Nos conhecemos, nos apaixonamos e casamos. A decisão foi em comum. Ambos com a mesma felicidade e o desejo de ser abençoados pelos orixás'', informa Alexandro, dizendo que não acontecem tantos casamentos na umbanda, como no catolicismo. ''A umbanda ainda é uma religião velada. Mas são feitos com muito amor e carinho do Pai de Santo, que obedece a vontade do orixá, que por sua vez, respeita nosso livre arbítrio. É uma união amorosa, de respeito mútuo, tanto a nível material como espiritual. O que os orixás unem, só eles para separar'', acredita.
A cerimônia durou cerca de duas horas e foi realizada pelo Pai de Santo na presença dos parentes, padrinhos materiais e espirituais e convidados. ''Entrei primeiro, descalço e esperei a noiva descalça, sob o cântico dos pontos - cantos específicos de cada orixá - e palmas. Afirmamos os votos, o Pai de Santo sempre nos perguntava se estávamos de acordo'', contou. ''Mais pontos foram cantados, clamando pela energia espiritual do nosso orixá, e o Pai de Santo fez a bênção sobre nossas cabeças. Nos beijamos e saímos sob os pontos e palmas dos presentes'', resumiu Adriane, acrescentando que depois houve uma recepção.


