Outro fato que não passa despercebido em uma sessão da Câmara é a ausência popular. A função do vereador, segundo a Constituição, é propor leis municipais e fiscalizar o Poder Executivo Municipal, principalmente quanto à execução orçamentária e contas apresentadas pelo prefeito. Se ele deve ser o ''fiscal'' do eleitor, a recíproca não ocorre. ''Quando era presidente da Casa, realizava reuniões nos bairros mas poucos - e sempre os mesmos - participavam. E aqui nas galerias ninguém vem fiscalizar'', alerta Mário Celso Cunha.
Nas ruas, o desinteresse também é evidente. A aposentada Norma Pietrowski não recorda em quem votou na última eleição. Apesar de achar importante uma maior cobrança da população aos seus representantes, ela confessa que ''passa longe'' daquela que deveria ser a ''casa do povo''. ''Política cansa. Eles prometem muito, não cumprem nada. Mas acho que deveria haver um envolvimento maior do povo sim'', atesta. E será que os curitibanos sabem qual o papel do vereador? ''Acho que é ajudar as pessoas'', opina a auxiliar de serviços gerais Janete Borges. O problema é quando a ''ajuda'' se transforma em assistencialismo. ''A heterogeneidade é grande, mas isso não significa que é bom para a cidade, já que poucos tem a visão do todo, de buscar melhorias para Curitiba em geral. A maioria representa suas classes, mas não tem a concepção legislativa que precisariam ter'', argumenta o professor Ricardo Oliveira.
O resultado acaba sendo um desvirtuamento da função principal do legislativo, que passa a ser procurado para questões como cadeiras de roda, dentaduras e pedidos de aposentadoria e emprego. No gabinete do vereador José Roberto Sandoval (PSC), por exemplo, passam mais de 350 pessoas por mês. ''O que podemos fazer é estabelecer um contato com empresas, que nos informam sobre a existência de vagas e nós encaminhamos. Acho importante o trabalho, já que muitas pessoas chegam aqui desorientadas e em outros lugares podem até ser ludibriadas por gente de ma fé'', defende o vereador.
Em outro gabinete, o motorista José Ladaniusk confirma as estatísticas. Buscando um emprego, ele procurou a ajuda de um vereador. ''Sempre que eu preciso de algum auxilio, procuro a Câmara. Acho que aqui é o lugar certo, afinal, os ajudamos a se eleger. Já estou com 54 anos e está complicado arrumar trabalho'', lamenta. (M.M.)

mockup