Um passeio pela história e memória da família. Esta é a sensação de quem percorre os cômodos do apartamento da psicóloga Maria Salete Arenales Loli em Londrina. Há mais de 20 anos, ela carrega peças herdadas e presenteadas por parentes. No acervo de móveis tem um criado mudo que pertenceu a uma tia, que viveu até quase 100 anos na Espanha. "Os móveis antigos trazem história, requinte e afeto para a casa", afirma. Para ela, que trabalha com o resgate da memória de adolescentes e idosos, vale a pena mesclar o novo e o velho na decoração.

"História é vida. Não tem graça ter tudo novinho", resume a psicóloga Maria Salete Arenales Loli que há mais de 20 anos inclui na decoração de sua casa peças herdadas e presenteadas por parentes
"História é vida. Não tem graça ter tudo novinho", resume a psicóloga Maria Salete Arenales Loli que há mais de 20 anos inclui na decoração de sua casa peças herdadas e presenteadas por parentes | Foto: Gina Mardones



O criado mudo, vindo da Espanha, fica no escritório do apartamento de Salete. Ela conta que, em uma das visitas feitas à tia, o marido foi convidado a sentar-se na peça e elogiou o móvel, feito de madeira. "No último dia de vida, no leito de morte, ela disse que era para entregar o criadinho pra gente. É um móvel que eu nunca vou me desfazer", conta. Além de decorar o cantinho de trabalho, o criado é usado para guardar documentos. Ele foi restaurado e mantém-se bem conservado.

Outra peça muito importante na história da psicóloga é um baú, que pertencia à sua avó. Salete lembra que, antigamente, as mulheres nasciam e já começavam a fazer o enxoval para o casamento. A sua bisavó usou o baú para acomodar os itens da avó. "A minha mãe herdou o móvel e eu fiquei com ele", explica. Hoje, ele compõe a decoração da sala e acomoda discos antigos colecionados pela filha. Cadeiras antigas e com detalhes em couro são os destaques da mesa de jantar do apartamento. Elas foram presentes da irmã, que adquiriu as peças em antiquários, e precisou se desfazer de algumas ao mudar-se para um apartamento menor. "Duas delas, inclusive, eram de um bispo", revela.

Salete também tem no acervo dois castiçais de madeira e um suporte para flores talhados a mão, presentes de uma tia querida. As peças têm mais de 50 anos. Uma parede do apartamento é decorada com quadros do casamento dos pais, com molduras originais da época. "Tenho emoldurado o meu buquê de noiva. Ano que vem completarei 25 anos de casada. Nessa parede também tenho fotos de criança do meu marido, da família do meu pai e dos meus filhos", descreve. Outro item muito importante para Salete é o relógio de cuco, que era do pai, falecido há mais de 30 anos.

O apreço e a valorização da história são tamanhos que, neste ano, até a decoração de Natal do apartamento ganhou uma cara diferente. A psicóloga tirou da caixa os brinquedos dos filhos, que hoje estão com 17 e 21 anos, e os surpreendeu ao resgatar as memórias de infância. "História é vida. Não tem graça ter tudo novinho. Eu tenho carregado esses objetos por mais de 20 anos. O que é moderno eu vou trocando. Os velhos ficam comigo pra sempre, dentro do meu coração."

Em Ibiporã, mobília acumulada durante anos se funde com as  características originais de imóvel construído em 1956
Em Ibiporã, mobília acumulada durante anos se funde com as características originais de imóvel construído em 1956 | Foto: Divulgação



Na casa do restaurador de móveis antigos, Luiz Antonio Sibim, em Cornélio Procópio, não tem nada novo. O imóvel era dos avós, foi construído em 1956 e permanece com as características originais da época. A mobília foi acumulada durante anos. "Eu sempre gostei de peças antigas e todo dinheiro que eu ganhava ia comprando. Guardava tudo na fazenda e quando me casei tinha até coisas sobrando", conta. Os móveis foram restaurados para decorar a casa da família. Jogo de quarto, sofá, mesa de jantar, armários da cozinha. Segundo Sibim, é uma coletânea de vários estilos e décadas diferentes.

Sibim trabalha com restauração e venda de móveis antigos há 23 anos e diz que a procura por essas peças tem aumentado bastante. "Até sete anos atrás, a decoração era como um laboratório de análise clínica, lisa, sem nada. Não tinha a identidade do morador. Hoje, mudou muito", afirma. Para ele, a casa precisa ter personalidade. Peças clássicas, de família, podem ser incorporadas à decoração contemporânea. Em sua casa muitas peças foram adquiridas em antiquários. Mas também tem algumas herdadas, como a mesa da cozinha e um armarinho, que fica na despensa. Uma cristaleira adquirida de uma velha amiga e duas moedas de ouro, trazidas da Itália em 1888 pela família do pai, estão entre os xodós da coleção.

Para a arquiteta Nathália Montans, o uso de móveis antigos na decoração sempre estará em alta "A casa precisa ter a cara do dono e os móveis antigos remetem à nossa história e essência", opina. A cômoda do quarto de bebê da filha dela era da avó. A peça, toda em marfim, foi restaurada e pintada de branco estonado. "Toda vez que vou usá-la, lembro-me da minha avó", conta. O mesmo acontece com os criados mudos herdados do avô, que compõem a decoração do quarto de casal. A arquiteta diz que os móveis antigos não precisam necessariamente combinar com uma decoração clássica.

Os móveis vintage, por exemplo, são mais contemporâneos, possuem linhas retas e cabem em qualquer ambiente. "O buffet da minha sala de jantar é um móvel vintage, que eu restaurei e laqueei de preto. Dá para brincar e não precisa se amarrar na decoração", sugere. A arquiteta diz que as peças antigas mais reaproveitadas são as cômodas bombês e as cristaleiras. Guarda-comida antigo também confere charme e tem sido usado para guardar cristais. "Hoje, nos tempos de internet, em que tudo é tão frio, ter a história materializada no lar não tem preço", afirma.

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