São Paulo - É quase uma obrigação: viajou, tem de mandar cartão-postal. Com base nessa premissa - e em um trabalho de pesquisa de quase dez anos -, o engenheiro e colecionador de cartões João Emilio Gerodetti e o jornalista e fotógrafo Carlos Cornejo fizeram o livro ''Do Brasil Para As Américas'', lançado neste mês.
Sétimo trabalho de uma série de obras sobre postais históricos, impressos entre os anos 1890 e 1940, o álbum traz a reprodução fiel de 688 cartões-postais de quarenta países das Américas. ''Era um desafio muito grande reunir postais desde a Groenlândia até a Terra do Fogo, no extremo sul do continente'', diz Cornejo.
Eles conseguiram. Para isso, contaram com o vasto acervo de Gerodetti - cerca de 75% do material impresso no livro veio de sua coleção particular. ''Mas fomos a campo também'', conta Cornejo. ''Visitamos alguns países como Peru e os Estados Unidos e em feiras de antiguidades ou junto a outros colecionadores, coletamos o restante do material.''
Apesar disso, a pesquisa não traz cartões-postais recentes. Segundo os autores, as imagens publicadas coincidem com a belle époque francesa (1880 a 1918). ''Nesta época pré-televisão e internet, o principal meio de circulação de imagens eram os cartões'', fala Cornejo. Ele pondera que, já naqueles tempos, a principal função desse tipo de cartão era, assim como hoje, ajudar a matar a saudade e ficar com uma bela imagem do destino turístico. ''Mas, muito mais do que isso, os postais capturaram uma parte importante da história e, diferente do que se imagina, também registraram catástrofes naturais.''
Dois destes desastres foram registrados em postais e estão publicados no livro. É o caso, por exemplo, do terremoto de 1906, em São Francisco, Estados Unidos, com cenas dos escombros dos prédios destruídos e do incêndio que se seguiu. Ou ainda da devastação de Saint-Pierre, ex-capital da Martinica que, após a erupção do vulcão Pelée, matou mais de 30 mil pessoas, em 1902.
''O desastre foi tão grande que apenas uma pessoa sobreviveu. A cidade acabou.'' Por conta do acontecido, o país lançou um postal com duas fotografias: mostrava o teatro principal da cidade antes e depois da erupção, só em escombros. ''Na Europa, centenas de cartões foram impressos com cenas da Segunda Guerra Mundial'', lembra Cornejo.
Na atual pesquisa, os autores procuraram mesclar paisagens de pontos turísticos, cenas do cotidiano e grandes obras de engenharia com a fotografia das pessoas de cada país. Estão registrados, por exemplo, a cultura dos esquimós da Groenlândia, dos índios brasileiros e bolivianos e até a pujança da cultura haitiana, antes do país se tornar um dos mais miseráveis do mundo.
Do Brasil, os autores tiveram dificuldades para encontrar certos cartões-postais. ''Até porque o destino natural dos cartões é serem enviados para fora do país'', explica o autor. Mesmo assim, no capítulo dedicado ao Brasil, há belas imagens de São Paulo, Rio, Santos, Manaus, Belém, Recife, Salvador e Porto Alegre.
Antes dessa obra, a dupla de pesquisadores chegou a publicar títulos com imagens das belezas naturais brasileiras, da capital paulista e das cidades do interior e do litoral do estado. ''Os cartões-postais são, por excelência, um filtro das imagens que mereciam ser reproduzidas. Até hoje é assim. Se a imagem do cartão não é boa, ninguém o compra.''

mockup