Carteira de trabalho: símbolo de quê?
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sábado, 30 de abril de 2005
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
Contratações, salários, demissões, aposentadoria... tudo fica registrado na carteira de trabalho. É o diário que retrata toda a história profissional dos brasileiros que trabalham formalmente no país. Só em Londrina, todos os meses, são emitidas 2,5 mil carteiras profissionais pela Subdelegacia do Ministério do Trabalho. Mas diante da realidade do mercado de trabalho nacional será que esse documento com 73 anos de existência ainda carrega a mesma simbologia de seus primeiros anos? Qual seu significado atual para o trabalhador?
Neuradir Colineti, de 59 anos, completa em novembro deste ano 45 anos de serviços prestados à Viação Garcia em Londrina. Neste trabalho conheceu a mulher, Maria José, criou os três filhos e há cerca de 10 anos se aposentou. Ainda assim não pensa em parar. ''Vou ficar fazendo o que em casa?''.
Ele ingressou na empresa quando tinha apenas 14 anos mas só conseguiu retirar sua carteira de trabalho ao completar a maioridade. Antes disso, precisou de autorização judicial para trabalhar. ''Não tinha nenhum documento, nem identidade, e andei muito tempo só com a carteira no bolso'', recorda Colineti, que começou sua vida profissional no setor de controle de passagens e, depois de passar por vários departamentos, hoje é encarregado do departamento de apoio ao controle de tráfego.
O homem que acompanhou de perto a consolidação e modernização da Viação Garcia comenta que na sua juventude ''o trabalho era bem mais valorizado'' e as pessoas tinham orgulho em dizer que trabalhavam com registro em carteira. Ele avalia que as ''coisas'' estão mudadas porque muitos dos jovens atuais não têm chance de seguir a carreira que gostariam. ''Quando se tem uma diretriz, ele vê a carteira com amor.''
Indiretamente, o estudante Alex Leonel, de 16 anos, que retirou o documento na última quarta-feira, confirma a tese de Colineti. Ele vê na carteira a chance de ingressar no mundo formal do trabalho. Mundo este que carrega em si uma contradição aparentemente inexplicável: ao mesmo tempo que procura por pessoas jovens exige dos candidatos um mínimo de experiência, a qual Leonel por enquanto não tem. Diante disso, mesmo que sua inclinação seja maior para a área administrativa, o jovem afirma não ter preferência por nenhum tipo específico de ocupação.
Estudante do 1º ano do ensino médio e com curso de informática, Leonel revela que seus colegas de classe vivem situação semelhante e nenhum deles está trabalhando. A dificuldade, segundo ele, reside justamente na falta de experiência. ''Sei que não vai ser fácil, porque o mercado está bastante concorrido. Mas acho que a carteira de trabalho pode ajudar porque as empresas sempre pedem'', afirma.
Para Gislaine Dias Elias, de 39 anos, a experiência não tem ajudado muito em sua recolocação no mercado de trabalho. O conhecimento acumulado em facções e no setor de lavanderia é ''esquecido'' quando o empregador confere sua idade no currículo. ''No Brasil, a faixa etária para o começo e o fim de carreira é entre os 18 até lá pelos 30 anos. Depois dos 35 anos, pode ter experiência que não se consegue mais nada. A gente parece um material de descarte'', denuncia.
Outro problema relatado por ela é que, no ramo de facção, o empregador contrata sobretudo temporários. Encerrado o ciclo de pedidos, o trabalhador volta para a fila do desemprego. Para Gislaine, ter experiência em carteira não tem grande significado e, assim, o documento perde em importância.


