Nestes tempos em que a virtualidade invade todos os aspectos da vida cotidiana, cabe uma pergunta: Que fim levaram as cartas? Não as cartas de baralho, nem as cartas de vinho. Aquelas de papel mesmo, com selo e envelope, que levam consigo a letra da pessoa querida, a textura do papel escolhido, às vezes um cheiro, um desenho, uma surpresa. Aquelas que a gente pode guardar na gaveta para ler depois de muitos anos e nos surpreender, bem diferentes da sua versão eletrônica atual, que pode ser deletada da caixa de entrada a qualquer momento, junto com spams, e outras porcarias.
Pois, a despeito dos e-mails, as cartas continuam aí e não são usadas apenas por motivos comerciais. Segundo a assessoria dos Correios, há uma estimativa de que as cartas pessoais representem 5% do volume total, cerca de 75 mil em um universo de 1,5 milhão de objetos que são postados diariamente no Paraná.
Uma boa parte dessas cartas certamente sai das mãos do jornalista e escritor Zeca Corrêa Leite, que manda seus envelopes quase que diariamente para amigos no Brasil e no exterior. Segundo ele, o hábito vem desde a adolescência, quando ainda nos anos 60 postou seu primeiro anúncio em uma revista de letras de músicas, numa sessão intitulada Correio do Coração.
De lá pra cá, sua paixão pelas cartinhas só fez aumentar. Ele brinca com as possibilidades do papel. Desenha, faz colagens, inventa séries, como por exemplo a série ''quando o carteiro chegou'' que traz junto um selo antigo, a ''série azul'', escrita em um papel colorido, ou a série das ''carinhas'', em que cada exemplar traz um pequeno desenho de uma pessoa. ''As cartas tem outro tempo. Depois de ler você guarda, tira o selo.'', observa.
Zeca não escreve esperando respostas. ''Escrevo porque gosto de escrever'', afirma. Também não escreve por algum motivo especial, manda carta até para o vizinho de porta. ''Não tem uma temática, falo do cotidiano, é tudo coisa muito simples'', diz. Simples e travessa. Para um amigo da Itália, ele prepara uma carta enorme, do tamanho de uma toalha de mesa. ''Vai ser a maior carta que ele já viu.'', diverte-se.
Para que essa prática não desapareça, o jornalista sugere que as novas gerações se permitam experimentar essa antiga forma de comunicação. ''Se eles descobrirem essa emoção de escrever, não uma letra virtual, mas uma letra sua, uma letra que é uma extensão sua, aí essa prática perdurará'', observa.
Para alegria de Zeca, muitos jovens ainda mantém viva essa prática. Um deles é o estudante de Medicina Nilton de Nadai, de 19 anos, que iniciou-se no mundo dos selos e envelopes há alguns anos, assim como o jornalista, por motivos do coração. ''A primeira carta eu mandei para uma menina que eu gostava'', recorda.
Depois dessa primeira experiência, Nilton passou a mandar cartas para várias pessoas e por vários motivos, sempre com alguma surpresa junto, como pétalas de flor, desenhos e coisas do gênero. Ele acredita que as informações contidas nas cartas podem ser mais precisas do que em outros meios. ''No telefone você não pensa pra dizer e muitas vezes as palavras tomam um rumo diferente, com a carta isso não acontece, você tem tempo pra pensar com calma'', avalia.

mockup