Carolina Avansini
Carolina Avansini A diferença parece pequena, mas assume grandes proporções quando traduzida em números. De 1996, o último censo demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) levantou 79.632.032 mulheres e 77.447.541 homens maioria feminina que supera o índice masculino em 2.184.491 habitantes. Entre as mais de 79 milhões de mulheres brasileiras, apenas 20% vive no campo. A população rural masculina supera (em pouco, é verdade) este número, totalizando 22,8% de homens vivendo fora da zona urbana. Apesar das mulheres serem maioria no índice geral, a situação se inverte na zona rural por uma questão de oportunidades de trabalho. Geralmente, os homens é que são contratados para trabalhar nas fazendas, sítios ou chácaras, e se mudam acompanhados dos filhos e esposas. Há pouco mais de três anos (já que o Censo saiu no final de 96), o IBGE levantou que as mulheres chefiam 19% dos domicílios fixos brasileiros. O número é bastante expressivo, mas não corresponde à realidade, principalmente a de nossos dias, diz a socióloga Silvana Aparecida Mariano. Segundo ela, a pesquisa se referia apenas às famílias unicelurares, ou seja, chefiadas por mulheres sem a presença de um marido. Mas a experiência nos mostra que muitas mulheres têm um companheiro em casa mas são as verdadeiras responsáveis pelo sustento da família. Na prática, o número de chefes de domicílio do sexo feminino é muito maior, enfatiza a socióloga, lembrando que recentes levantamentos realizados por institutos particulares de pesquisas e instituições de ensino enumeram as chefes de família com números que, às vezes, ultrapassam os 45%. O nível de escolaridade dessas chefes de família é outro dado relevante para compreendermos a realidade da mulher brasileira. A maioria delas (31,4%) estudou por menos de uma ano durante toda sua vida. Apenas 5,4% passaram mais de 15 anos nos bancos da escola e provavelmente chegaram a frequentar um curso de nível superior. Entre os homens, a maioria dos chefes estudou entre quatro e sete anos (33%), 24% frequentaram a escola por menos de um ano e 6,1% estudaram por mais de 15 anos. Para Silvana Mariano, a diferença no nível de escolaridade entre os chefes de família masculinos e femininos reflete uma questão social mais profunda: a feminização da pobreza. A raiz do problema está na desvalorização do trabalho feminino. Infelizmente, a renda da mulher ainda é encarada como um complemento do orçamento doméstico. As profissões femininas costumam ser banalizadas, encaradas como aptidão natural e sem necessidade de capacitação, afirma. Traduzindo a pesquisa, a socióloga explica que as mulheres com menos oportunidades de capacitação até um ano de estudo são as que mais assumem responsabilidades perante a família, inclusive porque costumam levar uma vida miserável e encaram melhor uma situação de separação. O problema se transforma em bola de neve quando constatamos que a mulher com menos chances no mercado de trabalho é também aquela responsável pelo sustento de outras pessoas. A preocupação é de todos, pois vai refletir em outras esferas da vida social. Pesquisas indicam que a maioria das crianças na faixa da miséria são provenientes de famílias chefiadas por mulheres, completa. Com relação à banalização do trabalho feminino, Silvana ressalta que a valorização da função depende do sexo do executor, independente da tarefa exercida. Alguns estudos informam que profissões tradicionalmente femininas no Brasil (secretárias, telefonistas, recepcionistas, atendentes de consultórios, lavadeiras, faxineiras, domésticas etc) são melhor remuneradas em outras sociedades apenas pelo fato de serem protagonizadas por homens.





