Já se tornou uma tendência nos grandes centros urbanos a concentração de determinados tipos de comércio em ruas específicas. Algumas destas localidades acabam se tornando sinônimos dos produtos que oferecem, como é o caso da Rua Teffé em relação aos calçados, da Rua 24 de Maio para produtos eletrônicos, da Desembargador Westphalem para os brexós e da Rua Dr. Muricy para o couro.
Segundo o professor Gilmar Lourenço, coordenador do curso de economia da Faculdade de Administração e Economia (FAE), essa é uma tendência mundial. ''O poder de atração de um segmento concentrado no mesmo espaço geográfico é muito maior do que em casos espalhados. Se por um lado a concorrência aumenta, por outro, também cresce a escala dos negócios'', explica.
Um bom exemplo é a Rua 24 de Maio, no centro de Curitiba. Em apenas uma quadra encontramos 24 lojas de produtos e componentes eletrônicos. O primeiro estabelecimento que se instalou na região foi a TV Universal. Seu proprietário, Auram Fselovici, 75 anos, afirma que, para garantir mercado, é preciso diversificar, de forma a não oferecer os mesmos produtos de seus vizinhos. Ele reconhece que a concorrência reduz os preços, mas admite que o movimento é maior do que em locais isolados. Além disso, existem na rua lojas que comercializam produtos complementares, como lap-tops, que necessitam dos transformadores que Auran vende em sua loja.
O fenômeno da complementaridade, segundo o professor Lourenço, ao invés de acirrar a concorrência, estreita os laços de parceria entre os lojistas. Os clientes concordam. Adeildo França, comprador de componentes eletrônicos, afirma que sempre encontra o que deseja nas lojas da Rua 24 de Maio. ''Se não tem em uma (loja) tem na outra'' afirma.
Segundo o professor de marketing Aldin Freitas, da PUC Paraná, a concorrência só é negativa quando não há colaboração entre os lojistas. ''A diversidade dos produtos e o preço deve ser uma regra informal para não prejudicar o nicho comercial'', afirma. Mas nem todos respeitam estas regras.
O comerciante de couro e tecidos Lazlo Schmuck, 70, reclama da competição com produtos asiáticos. Na Rua Dr. Muricy, onde tem uma loja há 34 anos, existem mais de 20 estabelecimentos similares, a grande maioria de propriedade de chineses. ''A gente quer vender coisa boa, mas eles só vendem porcaria'', reclama. Para Schmuck, a entrada de competidores chineses neste mercado foi responsável pela falência de muitos brasileiros.
A concorrência na Rua Dr. Muricy não respeita as regras apontadas pelo professor Aldin. Todas as lojas vendem praticamente os mesmos produtos e há disparidade de preços. ''Tenho que entrar na concorrência, mas como vou fazer competir com os produtos mais baratos deles?'' indaga Schmuck. O baixo valor do dólar frente ao real, segundo o professor Gilmar, seria o responsável pela entrada de produtos asiáticos no mercado brasileiro.
Mesmo entre os comerciantes chineses não há cooperação. O proprietário de couros e tecidos, um oriental que não quis revelar o nome, afirma que o mercado hoje está péssimo devido à acirrada competição entre os lojistas. ''Concorrência rouba dinheiro, tudo egoísta neste ramo'', afirma em um português rudimentar.

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