O anel viário central da Capital paranaense tem mais de 52,5 mil metros de ruas (o que inclui os bairros administrados pela Regional Matriz). E em uma única quadra desse emaranhado de vias, o sentido do tráfego é contrário. O trecho da Rua Conselheiro Laurindo, entre as ruas Treze de Maio e Presidente Carlos Cavalcanti é em mão inglesa: os carros circulam pelo lado esquerdo da via. A explicação do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Ippuc) é que essa foi a melhor maneira de projetar a circulação naquele local, pois evita o cruzamento no fluxo dos veículos e diminui os riscos de acidente.
  A intenção dos engenheiros de trânsito pode ter sido das melhores, mas quem se dispuser a ficar alguns instantes naquele local, observará que muitos motoristas se confundem ao entrar na quadra de mão inglesa. Que o diga o empresário Hercílio Henrique Cardoso. Dono de uma empresa de foto digital e plotagem, garante que já assistiu vários acidentes e manobras confusas entre os motoristas perdidos.
  O mais grave acidente que Cardoso presenciou foi nos primeiros dias deste ano. Um motociclista ficou bastante ferido, depois de bater de frente com um carro que entrou na contramão, ao fazer a conversão da Rua Presidente Carlos Cavalcanti para entrar na Rua Conselheiro Laurindo. ‘‘Aqui é o elo perdido de Curitiba. Não tem muito trânsito. Só quem mora na região, que transita por aqui com freqüência, é que não se atrapalha com o sentido do trânsito’’, afirmou Cardoso.
  Mesmo assim, o empresário acredita que a mão inglesa ainda é a melhor alternativa para o tráfego naquela quadra. ‘‘Eu nasci nesta rua. A mão já foi certa e aconteciam mais acidentes. Já foi mão única, teve divisória entre as duas pistas, mas essa (a mão inglesa) é a melhor opção’’, avaliou Cardoso. Para ele, o que falta é melhorar a sinalização. Há placas indicando o sentido da circulação nas duas esquinas, mas o empresário acredita que os avisos estão em pontos de pouca visibilidade.
  Sérgio Macedo, outro antigo morador da região, concorda que o reforço na sinalização ajudaria a organizar o tráfego na via. Ao contrário de Cardoso, o oficial de Justiça não lembra de ter visto acidentes, apenas motoristas confusos com o sentido do trânsito. ‘‘Falta a Diretran (Diretoria de Trânsito de Curitiba) pintar as faixas, melhorar a sinalização (horizontal)’’ sugeriu ele.
  Para Macedo, a sinalização deveria ser melhorada também para os motoristas que trafegam pela Rua Alfredo Bufren. Segundo ele, outro transtorno bastante comum é os motoristas fazerem conversão à esquerda na contramão para entrar da Alfredo Bufren – que passa ao lado da Praça Santos Andrade – na Rua Conselheiro Laurindo.
  O supervisor de Implantação do Ippuc, engenheiro Paulo Roberto Malucelli, reforçou que a mão inglesa naquele trecho evita que ‘‘os fluxos se entrecruzem, garantindo mais segurança e facilidade de circulação’’. ‘‘Apesar de ser contra as regras gerais de trânsito, a legislação permite exceções quando o propósito é garantir a segurança dos motoristas’’, afirmou. Os veículos que descem a Rua 13 de Maio e entram na Conselheiro Laurindo (conversão à esquerda) continuam no lado esquerdo da via. Da mesma forma, os que transitam pela Presidente Carlos Cavalcanti e entram na Conselheiro Laurindo, também, seguem pelo lado esquerdo.
  De acordo com Malucelli, fora do anel central, há uma outra via, sem saída, em que o tráfego é em mão inglesa. Na Rua Calixto Razolin, depois do cruzamento com a Rua Luiz Parigot de Souza, no bairro Portão, o trânsito teve a mão invertida para facilitar a circulação, principalmente, por causa do movimento de veículos de pais que buscam os filhos em um colégio existente no final daquela rua. Um outro trecho de mão inglesa, já desativado, ficava na Rua Madre Maria dos Anjos, no bairro Água Verde. A inversão no sentido havia sido, também, por causa da saída de um colégio.
  A Diretran informou, por meio da assessoria de imprensa, que, ainda esta semana, engenheiros irão ao trecho de mão inglesa da Conselheiro Laurindo verificar se as placas estão em locais de pouca visibilidade e, se for o caso, realocá-las. Comprometeu-se, também, a tomar providências em relação à pintura da sinalização horizontal.
  O Batalhão de Trânsito (BpTran) não tem levantamento do número de acidentes somente naquela quadra da Rua Conselheiro Laurindo, mas adiantou que o trecho não está entre os 26 locais de Curitiba listados como mais críticos.


SAIBA MAIS

- Não há registros oficiais que expliquem porque alguns países adotaram a circulação à esquerda. A explicação mais lógica é que o costume, na Inglaterra, vem da era medieval, quando cavaleiros andavam pelo lado esquerdo das estradas para poderem manusear as espadas com a mão direita em um eventual confronto.

- Outra explicação para a chamada ''mão inglesa'' seria que as carroças, na Inglaterra, também circulavam pela esquerda. Os condutores destros sentavam-se à direita para usar o chicote sem ferir o passageiro ao lado e para ter uma visão melhor da estrada.

- Na era moderna a primeira instrução documentada sobre mão de tráfego à esquerda, na Inglaterra, foi para a circulação na London Brigde, em 1756 e, depois, passou a ser regra em todo o Império Britânico.

- Atualmente, mais de 200 países ou cerca de 34% da população mundial mantêm a direção à esquerda. A maioria é formada por ex-colônias e ex-protetorados britânicos, mas há os casos curiosos do Japão, Tailândia e Indonésia, que optaram pela mão inglesa, conservada até hoje, embora nunca tenham estado sob domínio da Grã-Bretanha.

- Os cinco países com as maiores populações que optaram pela direção à direita são a China, Estados Unidos, Brasil, Rússia e Nigéria, enquanto Índia, Indonésia, Paquistão, Japão e Bangladesh são as cinco nações mais populosas que aderiram à mão inglesa.


Fonte: www.cowboysdoasfalto.com.br

mockup