Capital da tecnologia e do futuro
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Fernanda Mazzini<br> Reportagem Local 
De capital mundial do café à capital mundial da tecnologia de soja. A fertilidade da terra vermelha que tanto impressionou os ingleses colonizadores consolidou a vocação de Londrina. O passar dos anos e a chegada do desenvolvimento impôs a mudança do perfil econômico do município, mas se a produção agropecuária perdeu espaço para os edifícios e grandes centros comerciais a pesquisa tecnológica fincou raízes. Centenas de cultivares de commodities a grãos essenciais à alimentação humana plantadas em todos os Estados brasileiros carregam o gene pé-vermelho.
As pesquisas desenvolvidas em Londrina têm a missão de antecipar o futuro. Está nas mãos e na sensibilidade dos pesquisadores prever as necessidades dos produtores rurais e da população. Isso porque uma nova variedade lançada no mercado é fruto de até 13 anos de pesquisas e, por isso, a semente tem que estar apta ao plantio naquele período, sujeito às constantes transformações climáticas e ao surgimento de novas doenças e pragas. Além disso, a vida útil de uma nova variedade é de cerca de oito anos. A qualidade dos alimentos consumidos pela população também é considerada e, por isso, as novas variedades lançadas no mercado têm melhoramento nutricional.
Londrina tem dois grandes centros de pesquisas: Embrapa Soja e Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). As duas instituições chegaram na década de 70, quando os cafezais ainda dominavam a paisagem local. Veio a decadência do café no meio da década e, desta forma, as pesquisas contribuíram para a diversificação das culturas, com variedades adaptadas a cada característica regional. Localização estratégica do município, boa infra-estrutura já instalada e a mobilização da comunidade foram alguns dos fatores que contribuíram para a implantação dos centros de pesquisa.
A primeira instituição a chegar no município foi o Iapar. O instituto foi inaugurado em 1972 na região central e sua área de atuação era vinculada à cafeicultura. Hoje são várias as linhas de pesquisa entre cereais de inverno, culturas de verão e biodiesel e já foram lançadas cerca de 140 cultivares de plantas. O órgão tem 160 pesquisadores, dos quais 60% estão em Londrina. Nos trabalhos desenvolvidos o objetivo é integrar campo e cidade, produtores rurais e consumidores. Para os agricultores as vantagens são mais produtividade, custos de produção menores, sementes plenamente adaptadas às condições climáticas e resistentes a pragas e doenças.
O resultado é que, na cidade, a população vai consumir alimentos mais saudáveis ou biofortificados. Um projeto financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome pretende melhorar a qualidade nutricional dos alimentos básicos consumidos pelos brasileiros: arroz, feijão, milho, trigo e mandioca. As variedades são biofortificadas pelo método de melhoramento convencional e pretende acentuar minerais essenciais a uma boa nutrição. No caso do feijão, por exemplo, serão melhorados índices de ferro, cálcio, zinco e proteínas.
Esta pesquisa tem um sabor especial porque o grão é um alimento básico da população, mas vem perdendo espaço na mesa dos brasileiros. O consumo, que já chegou a 28 quilos per capita por ano, atualmente caiu para 17 quilos por pessoa/ano. O feijão é importante fonte de carboidratos e uma das principais fontes de proteínas, principalmente, para a população mais carente, informa a pesquisadora Vânia Moda Cirino, da área de Genética e Melhoramento de Plantas. Além disso, ela acrescenta que o grão é importante fonte de ferro e cálcio e apresenta alto teor de fibra solúvel.
Este fator auxilia na redução do teor de colesterol e de glicose no sangue, o que diminui o risco de doenças cardíacas, obesidade, câncer e diabetes. É recomendado o consumo de 30 a 60 gramas de feijão por dia. Esta quantidade supre 80% da necessidade diária por ferro e zinco. O Iapar já disponibilizou ao mercado 25 variedades de sementes, do grupo carioca e preto. E todos os anos são lançadas novas cultivares. Todas têm ampla adaptação em sete Estados. O Paraná é o principal produtor de feijão do País, respondendo por 23% da produção nacional, que é de 3,6 milhões de toneladas. Cerca de 60% da área de feijão cultivada no Paraná é de variedades da instituição.
As cultivares têm alto potencial produtivo e resistência a doenças, ao calor e à seca, comenta a pesquisadora. Além da alimentação doméstica, a pesquisa também voltou os olhos ao mercado internacional. Estão sendo desenvolvidas variedades de feijão branco, vermelho e rajado com previsão de lançamento para o próximo ano. Os três são grãos especiais e graúdos, preferidos por europeus e americanos. O Brasil terá a chance de ganhar novos mercados, enquanto os produtores rurais poderão agregar valor aos seus produtos. Os grãos especiais são negociados pelo dobro do preço do grão tradicional.


